O frio na diáspora

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Campestre sempre quis comprar umas botas de inverno, mas sua economia é tão precária apesar de seus três trabalhos. As imagina, se vê com as botas postas cobrindo seus pés das temperaturas abaixo de zero. A roupa de inverno é cara e as botas muito mais, ter roupa de inverno é uma opulência para um migrante indocumentado como Campestre, de 76 anos, sem direitos trabalhistas.  Quisera uma chumpa[1]  e umas luvas forradas, também uma calça, a roupa que usa para trabalhar não o ajuda com o frio, é a mesma roupa de verão. Então…

Continuar leyendo…

Outros horizontes

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Escuta ao longe o alarme do relógio despertador, vira para ver, são as três e trinta da madrugada, se levanto meio dormido e caminha para o banheiro, desde a noite anterior deixou a cubeta cheia com água para não ter que ir a essa hora a tirá-la do tonel que está no quintal. Em um saco tem quatro mudas de roupa, tira uma que passou na noite anterior e se apronta para o entregador de pão que não tarda em chegar.  Em uma das bocas do fogãozinho de mesa põe os feijões para…

Continuar leyendo…

O rei Pelé 

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul As gerações mais jovens acreditam que o futebol foi inventado há dez anos e que os campos sintéticos ou gramados sempre estiveram ali, igual que a proximidade e a superexposição nas redes sociais que tudo magnificam a favor das grandes empresas da exploração informática e de máfias que rodeiam o futebol. Daí que acreditam com investimentos milionários em propaganda a cada dez anos a jogadores estrela que lhes servirão para a venda de camisetas, audiência televisiva e entradas aos estádios. Impondo-lhes assim um ídolo às massas mundiais que são tão manipuláveis.  Além de…

Continuar leyendo…

Na hora do sereno

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Às três da madrugada já têm preparadas os maços de cenouras, beterrabas e rábanos. Lavaram na noite anterior, conseguem os legumes mais baratos quando os camponeses os arrancam de suas semeaduras e os entregam diretamente. Este ano também se aventuraram a comprar cocos para o ponche das festas de fim de ano, embora para consegui-los têm que viajar desde Chimaltenango até Escuintla ou às vezes até Suchitepéquez o que representa um gasto extra e muito forte para sua economia tão frágil.  Os pais de Ixmucané conseguiram comprar um lugar dentro do mercado, depois…

Continuar leyendo…

O dia em que as coisas mudem

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Só falta amarrar o cordão dos tênis e está pronta, com seu uniforme bem passado e seu cabelo cuidadosamente preso, Soledad está por começar sua terceira jornada de trabalho. Espia pela porta da cozinha e vê o salão completamente lotado, calcula pelo menos umas quinhentas pessoas que tem que têm que ser atendidas pelos seis que atendem às mesas, três mulheres e três homens. Nas manhãs trabalha como costureira em uma lavanderia, os remendos que faz engordam a carteira do dono, a ele lhe paga uma mínima quantidade, mas que lhe serve para…

Continuar leyendo…

Primero de janeiro, um dia a mais

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Compra a galinha na primeira hora da manhã, as verduras com as quais acompanhará o prato e as frutas para o ponche; Catalina quer fazer pamonhas, mas é muito trabalho para ela sozinha e com o cansaço que sai do trabalho, mal tem energia para a limpeza do apartamento onde mora com seus dois filhos, Juan de 12 anos e Guadalupe, de 5. Mas desta vez tem que levar a roupa à lavanderia, no edifício onde vivem não há máquinas de lavar, se atrasará na preparação do ceio de fim de ano.  Catalina…

Continuar leyendo…

Um dia de sol

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Begoña se envolve em um cobertor que pega na poltrona da sala e desce as escadas do edifício, mora no terceiro andar. Liga o carro e volta ao seu apartamento, põe quatro colheradas de café na cafeteira e duas xícaras de água, quando o café está pronto vai banhar-se com água fria para terminar de despertar, o relógio marca as três e quinze da madrugada. É sábado, começo de primavera, no restaurante a esperam às quatro em ponto.  Prende o cabelo ainda molhado em um rabo de cavalo, veste o uniforme correndo, põe…

Continuar leyendo…

O anseio do vendedor

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Liga o ferro e prepara um copo de água para salpicar com os dedos sobre a calça. Fulgencio segue com a tradição de seu avô materno, usa camisas e calças tradicionais, suéter de lã e sapatos tipo mocassino. Sempre com seu lenço de pano bem passado e cuidadosamente dobrado guardado no bolso de atrás da calça. Usa a mesma cinta de couro há quarenta anos.  Já que tem sua muda de roupa pronta vai banhar-se com a água fria do tonel, mas primeiro lava a muda de roupa do dia anterior e a…

Continuar leyendo…