Os grandes picaretas

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Sabina enviou durante vinte e sete anos caixas de encomendas cheias de roupa e presentes para seus quatro filhos na Guatemala. Teve as vértebras estilhaçadas de tanto limpar banheiras e privadas. Migrante indocumentada, suas mãos se racharam de tanto cloro e químicos. Compartilhando apartamento com mais sete pessoas, Sabina teve três trabalhos por dia. Limpando banheiros em restaurantes, edifícios de escritórios, shoppings e casa particulares. Se saberá quão suja são as pessoas dentro e fora de suas casas.  Viúva com quatro crianças, decidiu emigrar para poder dar-lhes um futuro melhor que o dela…

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O incenso aceso

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Disiderio acende uma vela no altar que tem na sala da sua casa no Colorado, voltou recentemente a trabalhar limpando banheiros públicos em parques do distrito. Faz um ano do falecimento de sua mãe, Modesta, a única sobrevivente de sua família, que foi massacrada pelo exército da Guatemala nos tempos da ditadura militar. Seus pais lhes contavam que, junto a outras famílias, se esconderam na selva durante meses para não serem assassinados. Daqueles dias de perseguição, fome, frio e angústia, recordavam os enterros que se faziam ao pé das árvores, como sinal…

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Folhas de arruda

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Jerusa caminha em volta do quarteirão enquanto desfruta os amarelos dos girassóis que adornam as cercas das casas. Em agosto, quando o calor de verão estadunidense faz arrebentar as pétalas silvestres e começa a temperar o pasto semeado nos canteiros, o aroma das flores de lavanda faz com que os últimos dias da estação sejam inesquecíveis em sua formosura. É então que florescem os girassóis e Jerusa esquece momentaneamente de todas as suas dores. Come melancia, também mirtilos e pêssegos. Faz salada de abacate com alfavaca e limão, prepara limonada com hortelã. Para…

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A ameixa

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Guillermina deixa os sacos do supermercado sobre a mesa e com urgência tira uma ameixa, lava-a e lhe dá uma mordida, o suco escorre pela comissura dos lábios.Fecha os olhos e saboreia lentamente sua doçura enquanto agradece às mãos que a cuidaram desde que a semente da árvore foi plantada. Desde criança seus avós camponeses a ensinaram a agradecer o trabalho que realizam aqueles que cultivam a terra. Originária de Parramos, Chimaltenango, Guatemala, quando chegou aos Estados Unidos não falava mais que seu idioma materno, o cakchiquel. Palavras de espanhol, uma por aqui…

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A casca de pinheiro

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Valerio trabalha há trinta e sete anos nos campos de cultivo da Califórnia, conhece como a palma de suas mãos os de uvas, ameixas, morangos, mangas, coentro, rábano e aipo. Tem o corpo moído e a alma rôta, como a maioria dos migrantes indocumentados no país.  É tarahumara, originário de Chihuahua, México, mas se reconhece sempre como rarámuri. Quando emigrou, já estava começando a tala ilegal de árvores da Serra Tarahumara e aumentavam os campos de cultivo de maconha e papoula que tomavam grande parte da Serra Madre Ocidental entre Chihuahua, Durango, Sonora…

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O gole de um novo dia

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Justina limpa quartos de hotel, vinte e dois por dia, às vezes vinte e cinco, dependendo se falta alguma companheira de trabalho. Seu turno começa às cinco da manhã e termina às sete da noite, catorze horas no total. De segunda a sexta. Aos sábados e domingos lhe alugam o espaço de um metro quadrado em um supermercado mexicano por vinte e cinco dólares por dia; aí vende mantas que borda nas noites em que não pode dormir, que são muitas. Isso ajuda para a gasolina. De quarta a sábado, Justina trabalha em…

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A tristeza de Cecílio

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Cecílio prepara uma xícara de café enquanto aquece dois tamalitos de feijão no microondas; da mochila que leva para o trabalho tira um potezinho de vaselina e unta um pouco na gema dos dedos, os tem rachados e sangram de tanto cortar cerejas todo o dia no trabalho. No supermercado mexicano que fica perto de onde mora, compra unguentos para a dor nas costas; ganha seis dólares por bote que quando cheio pesa quinze libras. Ele pendura um no pescoço e outro na cintura para conseguir ganhar doze dólares em cada volta;…

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O sulco e a jornada

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Rosa trata de acomodar o saco plástico cheio de laranjas que tem pendurado nas costas, mal consegue dar um passo porque está cheio e pesa cinquenta libras; como é baixinha esse saco ocupa a metade de seu corpo. A dor nas costas a faz caminhar curvada; há 16 anos realiza o mesmo trabalho desde que chegou à Califórnia vinda de Xicotepec, Puebla, México. Mal fala o espanhol e de inglês só umas poucas palavras.Rosa é indígena do povo Otomí e fala o otomí da serra, que é uma das nove variantes linguísticas do…

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As pétalas das flores

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Capitalino se senta à sombra de uma árvore de lilases, enquanto não sai o próximo carro do lavador automático; seu trabalho é secar os automóveis com uma toalha úmida. São só três da tarde, trabalha doze horas diárias, das sete da manhã às sete da noite, de segunda a domingo, trabalho que faz há vinte e um anos. O aroma dos lilases na primavera o faz viajar no tempo, embora não seja uma flor que cresce em seu cantão natal La Magdalena, Chalchuapa, Santa Ana, El Salvador, este o leva à sua infância…

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As horas de sol

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Cayetana acende o fogão e começa a esquentar a comida que meterá nos recipientes para seu almoço, são as quatro da manhã. Enche com água cinco garrafas plásticas de um litro e meio que são as que tomará em seu dia de trabalho. Em sua lancheira meteu um pacote de tortilhas quentes que envolveu em papel alumínio e amarrou em dois sacos plásticos. Revisa para ver se não esqueceu de nada: o recipiente de arroz, os ovos mexidos, os feijões fritos e as tortilhas. Põe as joelheiras, duas calças, dois suéteres, casaco…

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O trabalho de Silvestre

Tradução do Ana Corbisier, Revista Diálogos do Sul Quando acende a máquina de cortar grama, Silvestre se sente como tendo subido em um trator porque é uma máquina industrial; em toda sua vida nunca tinha subido em uma máquina assim, mas nos Estados Unidos teve que fazer trabalhos que não tiveram nada a ver com seu trabalho de professor padeiro em sua Nayarit natal. Trabalha como jardineiro, é encarregado de uma máquina industrial devido aos 20 anos que tem de experiência; os novos são postos a soprar a grama cortada com umas máquinas que se penduram nos ombros e a cortar…

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As sandálias de Tana

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Observa os gemas de seus dedos rachados pelo uso de tanto produto químico; suas mãos que trabalharam a terra limpa há 24 anos restaurantes e centro comerciais; originária de Camotán, Chiquimula, Guatemala, Tana deixou sua vestimenta indígena, da etnia maya ch’orti’ e pôs uma calça de lona, uma camiseta, um tênis e emigrou junto a outras 15 moças de sua comunidade. Seu povoado, corredor seco, deixou de ser há décadas a terra fértil que alimentava as raízes das plantas; sem água e sem comida tanto Tana como centenas de povoadores se viram…

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A sombra da rama de urucum 

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Aos 7 anos, Cándido emigrou à capital com mais cinco primos; um tio os levou para que começassem a trabalhar e ajudassem com os gastos da casa; nas madrugadas o ajudam com sua venda de sucos de laranja, atol e pães com feijão que arma perto da passarela da avenida Bolívar, durante o dia trabalham em um lava carros e nas noites o ajudam com a venda de espigas de milho cozido que vende em cestas perto da passarela do Aguilar Batres e do periférico, para aproveitar a saída dos alunos da Universidade…

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