Três turnos por dia

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Tento abrir a porta da padaria e o vento que está contra o faz mais difícil, mas além disso é uma porta antiga, com dobradiças antigas sem manutenção que tornam a porta uma fortaleza; quando finalmente consigo me bate nas costas, saio revirada para a frente e mal consigo manter o equilíbrio. A moça que está no caixa sorri e também o senhor mestre padeiro, um senhor de uns 75 anos de idade. Cale-se que a bandida me pegou nas costas, digo como forma de responder à saudação.  Busco pão francês, quero…

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Guatemala: Indígenas denunciam perseguição a jornalista e grave ataque à imprensa

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Guatemala, país de desigualdades eternas e racismo enraizado até no açúcar do café. País de classistas mortos de fome. Nessa Guatemala que se desborda de poesia e memória nos trajes típicos das mulheres indígenas e de sacrifício e trabalho milenar em suas mãos e costas, a exclusão é posta pelos mestiços que desde sempre se acreditaram superiores pela etnia e classe social.  Nessa Guatemala de indígenas massacrados e desaparecidos em massa, na Guatemala da desmemória coletiva, do abuso governamental, do desflorestamento, dos ecocídios, da migração forçada, dos abusos de bandos de criminosos…

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As vitórias de povos latino-americanos reafirmam que para lutar é preciso ter coragem

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Chega um momento em que o abuso e a injustiça cansam os povos e os fazem despertar em indignação; assim saem a buscar a liberdade e a democracia. Uns tardam mais que outros, cada um com seus processos e sua história, mas conseguem se se unem vencer a impunidade e toda forma de ditadura. São raridades, isso sim, por isso são lindas estas alvoradas que como campo florido enchem de ilusão e contagiam a alegria da grande festa popular.  Para unir-se há que ter senso comum e uma sede imensa de viver…

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Nos EUA, europeus jamais realizariam trabalho que fazem os indocumentados nas construções

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Não têm contrato, lhes dão trabalho só de palavra e lhes pagam o que o empregador quiser. São os que mais trabalham e os que menos dinheiro geram. São os latino-americanos que trabalham na construção nos Estados Unidos. Seus corpos são de meninos, de adolescentes recém desenvolvidos, a pele grudada nos ossos, de estatura baixa e até um pouco frágeis se olhamos bem. Chegam em magotes para trabalhar nos tetos das casas em construção, como pontos finos se vêm à distância das alturas. Mas são inquebrantáveis os homenzinhos de lombo duro; quando menos…

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Indocumentados e sem direitos: dano psicológico que vivem é invisível para o sistema

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Há um mês que não o vejo em seu posto de trabalho; é o encarregado de colocar nas bancas as cenouras, fungos, quiabos, nessa longa banca do supermercado onde sempre há dois trabalhadores colocando as verduras. Estará doente? Pegou o vírus? Me pergunto enquanto observo detidamente as outras bancas para ver se o encontro, mas não, não está, só há jovens fazendo o trabalho. Uma nova leva, a troca de turno, os que tem toda a disposição para trabalhar, os recém emigrados; suas carinhas dizem tudo. Os recém emigrados indocumentados parecem levar…

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Guatemala: Crimes de lesa humanidade praticados na ditadura caem no esquecimento

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Aparece no meu televisor há várias semanas, mas eu me faço de desentendida e busco filmes em outro canal; é um documentário sobre a violência que açoitaram as comunidades indígenas na Guatemala no tempo da ditadura. Que fácil é poder mudar de canal ou fingir que uma imagem não está na tela. Mais de 200 desaparecidos, dizem em letras grandes, mas eu não quero ver, não agora que estou relaxando vendo documentários sobre cultura, gastronomia e qualquer outra coisa, menos sobre o que dói. Que fácil, insisto, poder mudar de canal e…

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“El Colocho”, o jornaleiro que pôs à minha disposição o horizonte aberto para eu cultivar

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Pela manhã me acostumei com duas coisas, ler e ver plantas. Não há orvalho da alvorada sem leitura e sem plantas. A leitura me ficou como um hábito dos meus dias de infância vendendo sorvetes no mercado em meu Grande Amor, Cidade Peronia. As plantas, mais que um hábito são uma necessidade, é como uma espécie de oxigênio, como também é à terra. Necessito tocar à terra. Meu pai dizia de manhã: levantem-se, caminhem, estirem os músculos, respirem o ar fresco do dia, não há nada melhor que isso, como ver as…

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Rabanetes… Sigo plantando por essa bobagem de manter a raiz camponesa dos meus avós

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Ontem de manhã colhi meus primeiros rabanetes. Dava gosto mordê-los. Tive que colher antes do tempo porque os bichinhos já estavam começando a comê-los. No primeiro ano que eu plantei, estava feliz da vida vendo crescer aquelas folhas grandotas, mas quando fui colher não havia nada embaixo; não sei como a planta pode sustentar as folhas e os talos durante tanto tempo se os bichinhos tinham comido os rabanetes, sobrou só um para mim, mas era grandão! Esse dia eu chorei de tanto dar risada com minhas folhas e um rabanete na…

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A rua, mural, a humildade e a essência da alma dos que criam plantando sementes

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Em um dia a dia onde o ódio se reproduz como nuvem de poeira, quando as armas são o comum, encontrar pessoas que escolhem criar em lugar de cortar, estancar, arrancar e estorvar é algo maravilhoso. Porque criar é plantar uma semente que germinará, é como reflorestar.  Quem cria às vezes passa despercebido como todas as coisas simples da vida que por formosas já foram assimiladas como algo habitual. Como o oxigênio que respiramos já é algo habitual que não percebemos, mas se um dia nos falta aí então vamos a valorizar…

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As vendedoras da aldeia: Tímidas, falam pouco, apenas o absolutamente necessário

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Sempre vêm à minha mente quando as flores das dez começam a abrir suas pétalas nas manhãs tíbias de verão. E com a brisa tênue dos dias de sol e canícula, aparecem os baldes de água regando o pátio empoeirado daquela casinha que foi o ninho que abrigou a inocência da minha infância. E o cheiro da terra molhada chega até a janela do meu quarto, aqui nesta terra longínqua onde hoje planto alhos, sementes de tomates e acomodo os ramos da erva cidreira que se expandem galantes como trepadeiras entre as…

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