O gole de um novo dia

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Justina limpa quartos de hotel, vinte e dois por dia, às vezes vinte e cinco, dependendo se falta alguma companheira de trabalho. Seu turno começa às cinco da manhã e termina às sete da noite, catorze horas no total. De segunda a sexta. Aos sábados e domingos lhe alugam o espaço de um metro quadrado em um supermercado mexicano por vinte e cinco dólares por dia; aí vende mantas que borda nas noites em que não pode dormir, que são muitas. Isso ajuda para a gasolina. De quarta a sábado, Justina trabalha em…

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A tristeza de Cecílio

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Cecílio prepara uma xícara de café enquanto aquece dois tamalitos de feijão no microondas; da mochila que leva para o trabalho tira um potezinho de vaselina e unta um pouco na gema dos dedos, os tem rachados e sangram de tanto cortar cerejas todo o dia no trabalho. No supermercado mexicano que fica perto de onde mora, compra unguentos para a dor nas costas; ganha seis dólares por bote que quando cheio pesa quinze libras. Ele pendura um no pescoço e outro na cintura para conseguir ganhar doze dólares em cada volta;…

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O sulco e a jornada

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Rosa trata de acomodar o saco plástico cheio de laranjas que tem pendurado nas costas, mal consegue dar um passo porque está cheio e pesa cinquenta libras; como é baixinha esse saco ocupa a metade de seu corpo. A dor nas costas a faz caminhar curvada; há 16 anos realiza o mesmo trabalho desde que chegou à Califórnia vinda de Xicotepec, Puebla, México. Mal fala o espanhol e de inglês só umas poucas palavras.Rosa é indígena do povo Otomí e fala o otomí da serra, que é uma das nove variantes linguísticas do…

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As pétalas das flores

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Capitalino se senta à sombra de uma árvore de lilases, enquanto não sai o próximo carro do lavador automático; seu trabalho é secar os automóveis com uma toalha úmida. São só três da tarde, trabalha doze horas diárias, das sete da manhã às sete da noite, de segunda a domingo, trabalho que faz há vinte e um anos. O aroma dos lilases na primavera o faz viajar no tempo, embora não seja uma flor que cresce em seu cantão natal La Magdalena, Chalchuapa, Santa Ana, El Salvador, este o leva à sua infância…

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As horas de sol

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Cayetana acende o fogão e começa a esquentar a comida que meterá nos recipientes para seu almoço, são as quatro da manhã. Enche com água cinco garrafas plásticas de um litro e meio que são as que tomará em seu dia de trabalho. Em sua lancheira meteu um pacote de tortilhas quentes que envolveu em papel alumínio e amarrou em dois sacos plásticos. Revisa para ver se não esqueceu de nada: o recipiente de arroz, os ovos mexidos, os feijões fritos e as tortilhas. Põe as joelheiras, duas calças, dois suéteres, casaco…

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O trabalho de Silvestre

Tradução do Ana Corbisier, Revista Diálogos do Sul Quando acende a máquina de cortar grama, Silvestre se sente como tendo subido em um trator porque é uma máquina industrial; em toda sua vida nunca tinha subido em uma máquina assim, mas nos Estados Unidos teve que fazer trabalhos que não tiveram nada a ver com seu trabalho de professor padeiro em sua Nayarit natal. Trabalha como jardineiro, é encarregado de uma máquina industrial devido aos 20 anos que tem de experiência; os novos são postos a soprar a grama cortada com umas máquinas que se penduram nos ombros e a cortar…

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As sandálias de Tana

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Observa os gemas de seus dedos rachados pelo uso de tanto produto químico; suas mãos que trabalharam a terra limpa há 24 anos restaurantes e centro comerciais; originária de Camotán, Chiquimula, Guatemala, Tana deixou sua vestimenta indígena, da etnia maya ch’orti’ e pôs uma calça de lona, uma camiseta, um tênis e emigrou junto a outras 15 moças de sua comunidade. Seu povoado, corredor seco, deixou de ser há décadas a terra fértil que alimentava as raízes das plantas; sem água e sem comida tanto Tana como centenas de povoadores se viram…

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A sombra da rama de urucum 

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Aos 7 anos, Cándido emigrou à capital com mais cinco primos; um tio os levou para que começassem a trabalhar e ajudassem com os gastos da casa; nas madrugadas o ajudam com sua venda de sucos de laranja, atol e pães com feijão que arma perto da passarela da avenida Bolívar, durante o dia trabalham em um lava carros e nas noites o ajudam com a venda de espigas de milho cozido que vende em cestas perto da passarela do Aguilar Batres e do periférico, para aproveitar a saída dos alunos da Universidade…

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O retorno de Yeyo e dos netos de Papayo

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Yeyo cresceu vendo como seu pai sofria de dor nas costas de tanto carregar sobre os ombros cachos de banana nos dias infernais do trópico em Chiapas e sua mãe encher-se de queimaduras nos braços fritando batatas para vender fora da fazenda. Trabalhadores de mil ofícios, fizeram malabarismos para conseguir sobreviver como indocumentados em Tapachula, México; sempre em trabalhos precários, mal pagos e sem benefícios sociais, percorreram o estado do direito e do avesso e sempre foi o mesmo tratamento e pagamento. Por temporadas trabalharam no corte de café, pelo lado do…

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O eco do canto dos galos

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Agarra seu filho Yeyo, o enrola na manta e o põe nas costas. Sobre a mesa coloca duas mudas de roupa, seu pente, os talcos do menino, um pote de creme para a cara, um par de sapatos com as solas rotas – que pensa que as pode mandar consertar quando chegar – um envelope com fotografias e uns pedaços de camisetas que transformou em fraldas. Em uma manta põe um saco com um punhado de sal, uns biscoitos que assou de manhã e o último pedaço de queijo que lhe resta. Uma…

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O anseio de Catalino Sixto

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul São as 11 de noite, são 16 horas entre o lixo, montanhas e montanhas de lixo, buscando cobre, vidro, papelão e plástico. Quando têm sorte encontram bolacha e guloseimas empacotadas, as comem de um bocado, embora muitas vezes se intoxicaram, mas a necessidade pode mais, é a vida dos catadores de lixo, pensa Catalino Sixto que também ouviu dizer o mesmo por seus pais e os vizinhos da comunidade onde vivem. Tem as mãos e os pés cheios de cicatrizes de cortes que fez com pedaços de vidros quando busca material para vender.…

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Mas cada vez é menos

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul As únicas vezes que Caya da dona Chenta escutou o som dos cascos dos cavalos sobre os paralelepípedos foram nas noites em que fazia companhia à senhora da farmácia quando seus filhos iam de viagem à capital, então pedia um favor a dona Chenta para que a emprestasse para que dormisse com ela até eles regressarem; assim foi como Caya escutou o som da água potável percorrendo os canos de PVC; nessa casa também viu pela primeira vez uma privada, uma pia e uma geladeira. Um ferro elétrico, um televisor com controle remoto…

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A nostalgia de Hilarión

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Saiu do segundo turno às três da tarde, trabalhou de 5 a 10 da manhã em uma marcenaria cortando de maneira, e até às 3 da tarde limpando escritórios. Em seu caminho para o terceiro turno no qual trabalha como ajudante de garçom em um restaurante libanês, para em uma supermercado mexicano para enviar sua remessa semanal à sua família em San Sebastián, Retalhuleu, Guatemala; é domingo, mas todos os dias da semana ele trabalha igual.  Uma enorme fila o espera no supermercado, sempre há gente enviando remessas a qualquer hora, qualquer dia…

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