A jornada de Simona

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Ao meio dia soa o alarme, é hora do almoço, os trabalhadores têm meia hora para comer e regressar aos seus labores. Há 20 anos, Simone trabalha nesse lugar, entrou para a manutenção e depois de quatro anos ascendeu a ajudante de cozinha, desde cortar sacos de cebolas no princípio até ultimamente preparar comida gourmet que repartem em supermercados de zonas exclusivas. Originária do cantão Los Apantes – Juayúa, Sonsonate, El Salvador – Simona emigrou para os Estados Unidos para escapar do estigma, só queria viver em um lugar em que não fosse…

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Os dias chuvosos

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Nas notícias anunciam um prognóstico de chuva que vai durar o dia inteiro. Román apaga o televisor e trata de dormir, lhe doem as articulações dos joelhos e das mãos, amanhã será um dia longo, cansado e de empapar-se. Seu ofício de mil usos no supermercado coreano o deixa realmente extenuado, entre empurrar carrinhos que os clientes deixam espalhadas por todo o estacionamento, varrer e trapear o piso, limpar os banheiros, recolher o lixo da cafeteria, da peixaria, do açougue e dos recipientes que há dentro e fora para os clientes. Román, ao…

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Os grandes picaretas

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Sabina enviou durante vinte e sete anos caixas de encomendas cheias de roupa e presentes para seus quatro filhos na Guatemala. Teve as vértebras estilhaçadas de tanto limpar banheiras e privadas. Migrante indocumentada, suas mãos se racharam de tanto cloro e químicos. Compartilhando apartamento com mais sete pessoas, Sabina teve três trabalhos por dia. Limpando banheiros em restaurantes, edifícios de escritórios, shoppings e casa particulares. Se saberá quão suja são as pessoas dentro e fora de suas casas.  Viúva com quatro crianças, decidiu emigrar para poder dar-lhes um futuro melhor que o dela…

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O incenso aceso

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Disiderio acende uma vela no altar que tem na sala da sua casa no Colorado, voltou recentemente a trabalhar limpando banheiros públicos em parques do distrito. Faz um ano do falecimento de sua mãe, Modesta, a única sobrevivente de sua família, que foi massacrada pelo exército da Guatemala nos tempos da ditadura militar. Seus pais lhes contavam que, junto a outras famílias, se esconderam na selva durante meses para não serem assassinados. Daqueles dias de perseguição, fome, frio e angústia, recordavam os enterros que se faziam ao pé das árvores, como sinal…

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Folhas de arruda

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Jerusa caminha em volta do quarteirão enquanto desfruta os amarelos dos girassóis que adornam as cercas das casas. Em agosto, quando o calor de verão estadunidense faz arrebentar as pétalas silvestres e começa a temperar o pasto semeado nos canteiros, o aroma das flores de lavanda faz com que os últimos dias da estação sejam inesquecíveis em sua formosura. É então que florescem os girassóis e Jerusa esquece momentaneamente de todas as suas dores. Come melancia, também mirtilos e pêssegos. Faz salada de abacate com alfavaca e limão, prepara limonada com hortelã. Para…

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A ameixa

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Guillermina deixa os sacos do supermercado sobre a mesa e com urgência tira uma ameixa, lava-a e lhe dá uma mordida, o suco escorre pela comissura dos lábios.Fecha os olhos e saboreia lentamente sua doçura enquanto agradece às mãos que a cuidaram desde que a semente da árvore foi plantada. Desde criança seus avós camponeses a ensinaram a agradecer o trabalho que realizam aqueles que cultivam a terra. Originária de Parramos, Chimaltenango, Guatemala, quando chegou aos Estados Unidos não falava mais que seu idioma materno, o cakchiquel. Palavras de espanhol, uma por aqui…

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A casca de pinheiro

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul Valerio trabalha há trinta e sete anos nos campos de cultivo da Califórnia, conhece como a palma de suas mãos os de uvas, ameixas, morangos, mangas, coentro, rábano e aipo. Tem o corpo moído e a alma rôta, como a maioria dos migrantes indocumentados no país.  É tarahumara, originário de Chihuahua, México, mas se reconhece sempre como rarámuri. Quando emigrou, já estava começando a tala ilegal de árvores da Serra Tarahumara e aumentavam os campos de cultivo de maconha e papoula que tomavam grande parte da Serra Madre Ocidental entre Chihuahua, Durango, Sonora…

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