Tamalinhos de loroco

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul

O anúncio da tormenta invernal fez que a gente correra aos supermercados a abastecer-se, Lupita não foi a excepção. Comprou o habitual, suas verduras para suas saladas, arroz, duas libras de costela porque o caldo não pode faltar nos dias de tormenta, pão doce porque não poderia tomar café sem seu pedaço de pão ao lado. O outro dia fez sopa de lentilha con espinafre e também tortinhas de carne con agrião, não lhe gosta como se vê a acelga em esse lugar, apagada e suas folhas murchas, não lhe dão ganas de cozinhá-la assim. Porque para ela a memória das folhas de acelga têm a frescura da terra fértil da aldeia El Calvário, donde cresceu.

Já leva todo na cesta, seu abacaxi que parte em rodelas e as cascas que as põe a ferver com canela e passa tomando a água como chá durante a nevada. Na tormenta passada lhe deu por fazer pão, se lembrou de uns pães galanes que fazem em sua aldeia para Semana Santa. Todavia, claro, um forno de fogão jamais terá parecido com o forno de lenha no pátio da casa de sus infância. Não estão suas irmãs, nem sua mãe nem sua avó, não estão as tias, não tem a quem perguntar quanto de sal, se a massa já está em seu ponto, ou se o forno necessita mais lenha, pero fazer o pão a faz manter a memória viva das tardes banhadas de luz que espera que um dia a conheçam seus filhos, quando os tenha, porque quer ter quatro.

Vai buscando os tamalinhos de elote que chegam congelados desde El Salvador, se os come con leite, como em sua infância. A às vezes também se os come com crema e queijo fresco. Quando faz atol de elote lhe toca pôr um poco de farinha de milho ou maizena, porque se lhe corta porque os elotes estão muito ternos, pero não há como consegui-los mais maduros. O atol lhe gosta deixá-lo cualhar e ao seguinte dia cortá-lo con leite, como a fazia sua avó porque assim lhe ensinou sua avó a fazê-lo.

Abre o congelador e agarra a bolsa de seis tamales, si comprara a de vinte e quatro no teria onde pôr. Em frente estão os congeladores cheios de frutas, folhas e comida que chega desde toda Latinoamérica. Sempre se encontra as bolsas de jocote rojo de fevereiro que custam um olho da cara, um olho da cara a cambio de doce jocotes por bolsa. É um crime, sempre alega com ela mesma, o mesmo do preço dos tamales de elote. Si lhe contara a sua avó o que custa a penca das folhas de banano lhe diria que se regresse imediatamente, que anda fazendo tão longe buscando o que não há perdido.

A história de Lupita es como a de muitas adolescentes que creem estar enamoradas perdidamente e que na efervescência da alucinação deixam tudo atrás seguindo ao que mais tarde lhes vai a desdizer a vida. Não o soube ver com dezesseis anos, só pensou que junto a seu noivo poderiam fazer una vida juntos longe de todos, porque ninguém aceitava sua relação com um homem de quarenta e seis, separado e com seis filhos. Ahora que tem vinte e cinco e depois de haver vivido nove anos com um alcoólico violento que lhe batia todos os dias entende por que sua família se opunha. Se escapou com ele e não deu tempo a que o meteram preso por abusador de menores.

Recém o acaba de deixar e renta um estúdio con um balcão que têm como vista a parede de atrás de um edifício de cinquenta apartamentos. Sabe que se reconstruirá, que poderá pôr-se de pie e que continuará caminhando, conhecendo, experimentando e dando-se a oportunidade de respirar com calma e em paz. Ahora está aprendendo poco a poco o que é o amor próprio, o que significa disfrutar de sua própria companhia, seu ser interior, da imensidade de seus sonhos e a cuidar-se como cuidava as flores do jardim na casa de sua infância. Porque é um crisântemo, se diz sempre quando se vê ao espelho. Los crisântemos duplos que semeava no sulcos da parcela de seus padres aos que cuidava com dedicação e ternura.

Junto às bolsas de jocotes encontra recém-chegadas as bolsas de flor de pito, chipilín e loroco, todo produto guatemalteco. A alma se lhe vai en vilo e não a pode alcançar, sente seu coração acelerar-se, lhe faz falta o aire. O loroco sempre lo cortou em casa de seus avós paternos, no oriente guatemalteco. Lá conheceu parcelas cheias de limoeiros, árvores de manga enormes como ceibas, a maçã rosa, aas queijadinhas de arroz, o queijo seco e as tunas roxeando entre os zacatales secos do deserto al pie da Serra de Las Minas.

Imediatamente agarrou quatro bolsas, tomou farinha de milho, um rolo de tusas e com urgência chegou a sua casa a preparar os tamalinhos de loroco. Enquanto esses ferviam, agarrou sus xícara de café y se sentou no balcão a ver a neve cair. Seu ninho cheira de pronto a monte, manga madura, chico zapote, a paternas e a os limões maduros al pie das árvores  de jocote marañón.

Texto en español

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Ilka Oliva-Corado.

22 de fevereiro de 2026.

Estados Unidos.

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