Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul
Desperta como todos os dias às três da madrugada, se pega um estirão na cama de metal que têm uma perna torta e dá um salto, cai em pé no chão de terra. Destranca a porta feita com pedaços de tábuas e sai para o quintal a escovar os dentes e lavar-se a cara com a água fria que recebeu o sereno à noite. Corta um limão pelo meio, deixa cair um pouco de bicarbonato e passa nos sovacos.
Amarra o cabelo em um rabo de cavalo, termina de pôr os sapatos e vestir um suéter . Começa a caminhar pelo bulevar principal de Los Cerezos, periferia onde vive e sai no primeiro ônibus que vai para o mercado Las Golondrinas que fica na capital. Los choferes já a conhecem, a veem fazer o mesmo caminho todas as segundas-feiras, Julia de oito anos vai comprar a fruta para fazer os sorvetes que vende no mercado.
Às cinco da manhã em ponto chega o ônibus em seu ponto, lhe diz ao motorista que não vaia sem ela. Julia tem quarenta e cinco minutos para comprar a fruta e sair apressada a tomar o ônibus que, se vai sem ela, tem que esperar o que chega às oito e se isso acontece lhe faz perder o dia de venda, porque não chegaria a tempo para vender os sorvetes e seria um grande desbalanço na economia semanal da família.
Julia mira tanta fruta fresca que quer comprar todas: laranjas, toronjas, mexericas e os sacos de limão cor de penas do bando de periquitos que passam voando todas as tardes, a caminho de montanhas verde garrafa que admira desde o quintal de sua casa.
Imagina uma limonada ao meio-dia quando vai correndo a estudar. Passa pela plantação de cebolas e com vontade compraria um maço de um cento, lhe encanta a cebola roxa , as come com seu pai, cruas quando fazem ovo fritos e o acompanham com feijão parados.
O cheiro das cestas cheios de murici a atolondra , o que não daria por comer-se um punhado. Junto está a venda de amoras, compra duas libras. Segue caminhando, sentindo vibrar em seu coração a alma de Las Golondrinas. Avança a passo ligeiro, mas sem deixar de observar absolutamente tudo o que logram acaparar seus sentidos, os sacos cheios de especiarias e os grãos de milho de cores variadas, o mesmo que o feijão. Os maços de espigas penduradas nas vigas que sustentam o teto de nylon nos locais de venda de grãos, igual que as luzes de todas as cores, os rolos de tabaco, as réstias de alho, a canela com a forma de raspas que dá para a senhora que vende lenha de azinheira ao final da quadra onde vive. Quer comprar tudo, especialmente as carambolas para fazer refresco para o almoço.
Quando passa pela tomateira se impressiona da variedade de tomates, mas sempre aposta pelo tomate mandarina porque lhe gosta sua acidez, embora não tenha dinheiro para comprar, se tivesse compraria uma libra para fazer molho para comê-lo com as tortilhas recém-saídas do fogo que acende a senhora que vende tortilhas ótimas na quadra vizinha. Cada segunda-feira a viagem de Julia está cheia de cores, aromas, vozes, sons e formas que só tem no mercado, um mundo em si mesmo. Um mundo que se vai ficando impregnado na sua imaginação e na sua memória. Um mundo que pouco a pouco vai formando sua identidade e seu sentido de pertencer. Um mercado que se converte na raiz que a sustenta.
Apressa o passo porque o tempo está passando, vive enamorando as tortilhas, um pedaço tortilha quente é seu almoço quando regressa de vender sorvetes e se apronta em quinze minutos para ir estudar de tarde. Mas nesta ocasião não tem dinheiro para comprar como sucede con regularidade, cosa que não evita que a senhora que vende lhe regale sempre um pedaço para saborear. Justo enfrente está a venta de cocos e Julia una vez más suspira al ver aqueles cachos que vendem também.
Pede dois cocos maduros, pero lhe encantaria comprar uma água de coco no saco plástico e um tostado de feijão do que vende torrados com o calor das brasas ao final do corredor. O que não daria Julia por ter dinheiro para comprar um prato de arroz doce, com o fome que tem, até pediria dois. Por fim compra um saco de palitos para sorvetes onde vendem e vai apressada a comprar duas libras de açúcar. A semana próxima irá comprar uma caixa de banana verde para o chocolate com banana, depois ir comprar abacaxis para o chocolate com abacaxi.
Sempre que passa pelo setor onde vendem flores suspira e se maravilha con tanta formosura e frescura. Tira umas quantas moedas do bolso de sua calça e lhes pergunta às vendedoras quanto pode comprar com o que tem, e mais de uma vendedora agarra um buquê de cravos, o desamarra e faz um outro mais pequeno que lhe vende. Queria comprar meia dúzia de bananas para cozinhá-las e comê-las com leite, mas o leite é um luxo que não se pode dar, tampouco as bananas;
São cinco e quarenta e cinco minutos e o aroma dos cravos a cobre enquanto dorme de regresso no ônibus para sua casa. O sonho durará uma semana, até a próxima segunda-feira que regresse a percorrer rápido as veias de mercadão.
Se você pretende compartilhar esse texto em outro portal ou rede social, por favor mantenha a fonte de informação URL: https://cronicasdeunainquilina.com
Ilka Oliva-Corado.
Agosto de 2025.
Estados Unidos.