Doces de cardamomo

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul

Está no tanque lavando a roupa de toda a família desde as quatro da madrugada, algumas chegaram desde as três, cada una acompanhada con um candil para iluminar-se um pouco na grande escuridão em meio às arvores da aldeia. Por sorte têm um teto que as cobre um pouco quando chove sem  vento, mas quando são tormentas não há onde refugiar-se e lavam recebendo o aguaceiro, terminam com a roupa empapada, que vai escorrendo enquanto caminham de regresso para suas casas. 

 Se terminam antes que amanheça aproveitam para banhar-se, com sabão de coche ou azeitona que embrulham em jornal, e sem faltar a pedra poma para esfregar os calcanhares. Mas se o dia clareou não podem porque o tanque que está à beira do caminho, e por volta de seis da manhã se encheu de vacas, cabras, crianças e adolescentes que vão pastoreá-las. De adultos que van a tomar o ônibus para viajar à capital.

 Às seis em ponto  Lupita tem que ir-se a organizar produtos para vender, coalhar o leite para fazer o queijo, ir-se no canteiro a cortar as flores e raminhas do véu de noiva. Os ovos das galinhas, que recolheram desde a tarde anterior, os envolvem um por um em jornal para que não se quebrem. Corta as guias dos  güisquilares e as amarra em pequenos manojos. Raminhas de  chipilín e erva cidreira, mel de abelha, manojos de ocote. Guarda tudo na cesta e prepara seu yagual. 

 Começa a amassar o queijo, o soro o põe em sacos plásticos de uma libra porque também o vende. Coloca as bolinhas de queijo em folhas de bananeira e os acomoda dentro da cesta. Toma depressa uma xícara de café de milho, enquanto come uma tortilla com sal. Amarra o avental, sua mãe lhe persigna os produtos com ramos de arruda e ela vai vender ao bairro recém estreado que agora está no que era a fazenda Os Ciprestes. 

Lupita recorda as árvores frondosas e o zacatal que havia na fazenda. Observa com tristeza que a urbanização deixou o chão cheio de buracos, pó e lodaçais, lotos diminutos que vendem às pessoas pelo preço de um olho da cara. 

Em meia hora vende tudo o que levava na cesta, com esse dinheiro vai ao mercado a comprar meia garrafa de azeite, uma libra de sal, uma libra de açúcar, pilhas para o rádio e uma libra de doces de cardamomo que leva a seus cinco irmãozinhos que a esperam em casa, a quem cuida como se fossem a menina de seus olhos. 

Texto en español

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Ilka Oliva-Corado.

20 de julho de 2025.

Estados Unidos,

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