Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul
Em outros tempos tinha comprado as goiabas na aldeia a dez len cada uma, “goiabonas” galanas do tamanho de sua mão, mas em câmbio essas goiabas churucas dão mais lástimas que gosto, caríssimas como tudo, hoje em dia até o ar que se respira sai caro, reflete Toña, vendo como ajusta seu salário estirando os centavos.
Tem vontade de refresco de rosa de Jamaica, os sacos de duas libras, sempre os encontra nas prateleiras de baixo, onde estão os feijões verdes e as beterrabas. Embora sempre direto onde mandaram fazer compras, hoje Toña tem vontade de caminhar nos corredores do supermercado e desconhecer as frutas incolores e sem sabor que lhes lembram que tudo é passageiro nesta vida, menos os pesticidas que chegaram para ficar. Mas bem, se consola, em outros tempos ela tinha seus dentes sadios, hoje tem uma dentadura que além do mais, fica grande na boca.
Ao passar em frente as beterrabas agarra três para cozinhá-las e comer em rodelas, com limão e sal. Nessa anda quando se lhe atravessa as prateleiras onde estão os aipos, o coentro, as cenouras, o agrião e as alfaces. Alfaces de todo tipo que leva anos comprando para suas saladas, até essa vez que lhe disseram que fervera a alface e se tomara a água antes de deitar e que isso lhe ajudaria com a insônia, mas é puro conto, ou ela é dura como a pedra ou o chá estava muito ralo. O que serviu foi ferver a casca de uma banana, a fez dormir doze horas, o que nunca tinha dormido em sua vida.
Seu nariz se impregna do cheiro a terra recém molhada, seus pés começam a afundar entre a terra solta. Lhe custa respirar, necessita ar, respira com dificuldade. Sente uma tontura e mal logra agarrar-se da beirada da prateleira. Sente enjoo; que lhe acontece? Que é essa sensação? por acaso terá um ataque ao coração? Não, não aí, longe, onde ninguém a conhece, sem ter quem envie seu corpo de regresso a sua aldeia.
Seus pés continuam afundando na terra molhada, até que não pode mais e cai sentada em meio de uns sulcos de alface. Suas mãos se encolheram, sua pele é mais escura, toca seu peito e tem vestido um huipil, onde estão seus sapatos? Seu cabelo é negro e comprido e carrega na cabeça o cesto com a almoço para seu papai e seus irmãos que estão trabalhando, limpado o mata. E tem dentes! Enquanto seu pai e seus irmãos almoçam, ele caminha entre os sulcos, com os pés cheios de lado, ajuda a limpar o mato e aproveita a continuar cortando folhas. A névoa embeleza os campos de cultivo e até onde não dão mais seus olhos está cheio de semeaduras, as hortaliças são todo seu horizonte . Os cerros abrigam sua infância.
Alfaces enormes, como bolas de futebol, frescas, recupera a ritmo de sua respiração, tomar uma e vai, sai do supermercado antes de que lhe dê outro desmaio. Enquanto ferve a rosa de Jamaica, Toña parte os pepinos, as cebolas, os tomates e tira as folhas de alface. Limpa a mesa, a que tem uma toalha que lhe deu sua tia, tem em sua mesa a toalha favorita de sua tia, o que para ela é um luxo, sua herança mais querida e a cuida como a menina de seus olhos. Antes de comer dá as graças por haver tido a oportunidade de economizar para comprar sua dentadura para poder mastigar bem.
Enquanto disfruta sua salada, observa pela janela aos passarinhos deslizar-se pelos ares, é junho e o canto das cigarras começa a harmonizar com o entardecer.
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Ilka Oliva-Corado.
29 de junho de 2025.
Estados Unidos.