Comandanta Ramona inspira novas gerações de mulheres indígenas na busca por seus direitos

Tradução do Beatriz Cannabrava, Revista Diálogos do Sul

Sai do trabalho, são por volta das seis da tarde; nesse dia limpou duas casas, a última lhe tomou mais tempo do que de costume porque seus empregadores iranianos tiveram celebração de Natal, um Natal atrasado que celebram em 7 de janeiro no calendário Juliano; a dona da casa lhe explicou isso em inúmeras ocasiões, quando ela está passando pano e a patroa aparece para contar-lhe histórias de seu país e de seus antepassados. Tomasina sempre a deixa falar sem deixar de passar pano, mal entende inglês.

Quando chegou encontrou a casa numa bagunça só; nem porque está com a gravidez avançada seus empregadores têm a consideração de ajudá-la não sujando tanto, mas é como se fizessem de propósito e enchessem o chão de lixo para que ela limpe. É que são montanhas de pratos sujos que não puseram na lavadora de louça em uma semana. Não é possível que ela faça tudo. Mas o que Tomasina pode esperar, se seu trabalho é limpar. Que nasceu para limpar, tem pensado desde que tem consciência.

Ela limpa desde que tem memória. Limpar a casa de seus pais, ajudar na de seus avós, limpar o galinheiro, o chiqueiro, o curral das ovelhas e das cabras. Tirar os piolhos de seus irmãos para que não sofressem vergonha na escola, uma escola que ela não pode frequentar por ser a filha mais velha. Moer o milho para as tortillas na pedra de mão. Lavar a roupa de seus irmãos e a do seu pai. Limpar, suas mãos foram feitas para limpar a sujeira alheia, foi o que sempre pensou.

Tomasina que via as crianças banhando-se no rio e saltar nas poças, sempre sonhou em ter também esse tipo de diversão; imaginava como seria a sensação de lançar-se dos galhos da árvore e cair de barriga nas poças, como faziam os meninos, mas isso era proibido por seus pais, que consideravam uma perda de tempo com a quantidade de obrigações que tinha em casa. Ser a única filha mulher e a mais velha pôs uma carga em seus ombros muito pesada para sua pouca idade. Uma carga comum nas meninas de seu povoado. A única vez que tentou brincar com boneca com os cabelos de milho recebeu uma surra de seu pai que o deixou de cama por dois dias; isso serviu para não tentar novamente.

Originária de San Blas Atempa, Oaxaca, Tomasina emigrou para os Estados Unidos quando tinha 16 anos, em um dia de chuvas torrenciais, sem jantar e sem desjejum, com as tripas ardendo de fome, com os pés inchados cobertos com uma pantufa remendada por ela mesma. Com um suéter de sua avó e enrolado em um pedaço de pana, um punhado de terra para que sua raiz não se perdesse tão longe ela ia. Fugiu de um casamento arranjado por seu pai e seu avô, que não a puderam defender nem sua avó nem sua mãe, porque a última palavra é dos homens. Sua mãe a apoiou para que fosse embora, foi ela quem chamou por telefone suas primas nos Estados Unidos para que lhe emprestassem dinheiro para a viagem de Tomasina; o coiote era um conhecido do povoado que tinha cruzado para o outro lado.

Já são 10 invernos que passam nos Estados Unidos; há um ano se casou com Felipe, um salvadorense que chegou 2 anos depois dela. Felipe emigrou porque em uma bebedeira bateu em um filho de policial e este andava procurando por ele para matá-lo; seus pais o enviaram à casa de uns tios nos Estados Unidos. Felipe foi apresentado por uma amiga em um aniversário de um de seus filhos e desde então não deixaram de se ver nenhum dia, não é que sinta amor por ele, como esse amor das telenovelas, mas fazem companhia um para o outro e são muito amigos; para ambos isso é suficiente.

Ele trabalha como pedreiro em uma empresa de polacos, onde o trabalho pesado é feito por latino-americanos e são os que menos ganham por ser indocumentados. Alugam um apartamento que compartilham com outras 9 pessoas, ambos enviam dinheiro para suas famílias em seus países de origem, pois ajudam com o estudo e a criação de seus irmãos pequenos, com o remédios para os avós e ajudam seus pais.

Com oito meses de gravidez, Tomasina ainda trabalha limpando casas; é isso ou não há para enviar remessas ou pagar o aluguel. Felipe não pode arcar sozinho com os gastos. Na semana anterior nevou em quantidade e esta semana está chovendo água neve, que converteu a neve em gelo negro, perigoso para guiar e caminhar porque as ruas e calçadas se convertem em placas de gelo. Quando estava recém emigrada caiu várias vezes porque não sabia andar sobre o gelo negro; os primos de sua mãe lhe explicaram que se chama assim porque não se vê como a neve que é branca, esse gelo é transparente e muito escorregadio.

Não tem carro, não sabe guiar, todos os dias viaja de ônibus, mora em bairro de operários em Indiana. Nunca havia visto gente tão negra como a que vive nesse lugar, nem tantos mexicanos de tantos lugares juntos. Desce do ônibus e Felipe vem pegá-la porque vive a dez quadras da parada; caminha para a esquina para visitar a loja de segunda mão que acabam de inaugurar.

Observa a fotografia de uma mulher com um gorro passa-montanha na porta do local. Uma jovem termina de abrir a porta para ela enquanto lhe dá as boas-vindas à loja “Comandanta Ramona” que é um lugar onde arrecadam fundos para enviar víveres, remédios e roupa às comunidades indígenas em Chiapas, lhe comenta. Tomasina que não sabe ler nem escrever observa as letras grandes na entrada da loja, mas lhe chama a atenção a mirada da mulher com o gorro passa-montanha. A jovem lhe explica que essa mulher é a Comandanta Ramona e muito amável lhe aproxima de uma cadeira para que se sente.

Entusiasmada a jovem estadunidense lhe comenta em perfeito espanhol que havia viajado à América Latina muitas vezes e que lhe impactou a organização das mulheres zapatistas no México e que a Comandanta Ramona tem sido a inspiração para milhares de mulheres ao redor do mundo porque lutou pelos direitos das mulheres indígenas dentro das filas do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Por isso decidiram pôr seu nome à loja, em honra à sua luta.

Ao ver o interesse de Tomasina, a jovem vai buscar um folheto com a biografia da Comandanta Ramona, aí lhe conta que faleceu em 2006, mas que seu exemplo continua vivo nas lutas das mulheres indígenas de Chiapas. Que a Comandanta Ramona lutou contra os casamentos arranjados e pelo direito das mulheres a decidir sobre seus corpos, por seu direito à liberdade, a frequentar a escola, a levantar a voz, a opinar e tomar decisões na família e na comunidade. Tomasina lhe comenta que não sabe ler nem escrever, que de nada lhe servirá o folheto que lhe deu, mas a jovem estadunidense se oferece a ajudá-la para que aprenda a ler e escrever porque esse é o exemplo Comandanta Ramona, ajudar-se umas às outras sem importar nacionalidade, nem credo, nem idioma. Combinam que ela virá três vezes por semana, ao sair do trabalho, com seu caderno para que lhe ensine.

Felipe passa recolhendo-a, ela sai da loja de segunda mão convencida que chamará sua filha de Ramona, como a Comandanta. Que chamando-a assim sua filha terá a força, a integridade e a coragem de levantar a voz, de lutar por seus direitos, de ir à escola e um dia terminar a universidade, para que não seja analfabeta como ela, para que não tenha que fugir como ela para escapar de um matrimônio arranjado.

Comenta isso com Felipe durante o jantar e ele lhe responde que ponha o nome que queira, que o que ela decida estará bem. Essa mesma noite Tomasina entra em trabalho de parto e Felipe chama os bombeiros que a levam de emergência ao hospital; e nasce na madrugada de gelo negro, Ramona Citlali, a milhares de quilômetros de seus bisavós, avós e tios, com a força e irreverência de suas ancestrais indígenas que como sua mãe, sua avó e a Comandanta Ramona se rebelaram contra a opressão patriarcal. Mais tarde nesse mesmo dia sua mãe chorou em San Blas Atempa, quando Tomasina a chamou por telefone para dizer-lhe que nasceu sua neta e que a chamou de Ramona Citlali, Citlali em honra a ela que a libertou de um matrimônio arranjado para que sua neta tivesse um futuro diferente.

Finalmente, Tomasina poderá plantar no pouco de terra que levou de seu povoado quando emigrou, talvez plante uma erva aromática, sempre gostou do aroma da alfavaca e do alecrim, ou talvez plante uma muda de pimenta, para ter sempre à mão o tempero para as sopas.

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Ilka Oliva-Corado @ilkaolivacorado

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