“O idioma do império”

Tradução do Eduardo Vasco, Diário Liberdade 

Sempre quis aprender francês para ler A Náusea e As Palavras de Sartre em seu idioma, porque nas traduções, por muito boas que sejam, em algum momento se perde a essência, a pureza do texto que só se mantém ao lê-lo no idioma em que ele foi escrito originalmente. Porém, mais que tudo, para escutar em seu idioma as canções da grande Édith Piaf, porque não é a mesma coisa escutar uma canção e não entender o que diz, embora esteja claro, o idioma do coração é universal e Édith é alma pura.

Também quis aprender português para ler em seu idioma a grande Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus, porque não é a mesma coisa lê-las em traduções.

Não é a mesma coisa ler Whitman em inglês do que em espanhol. E perder o encanto da grande Nina Simone por não entender o idioma em que canta. O que dizer dos pronunciamentos de Martin Luther King e de Rosa Parks.

Com isso quero dizer que não devemos brigar contra os idiomas, porque os idiomas não têm nada a ver com as oligarquias nem com as fronteiras que nos impuseram. Não têm nada a ver com as ditaduras ou os genocídios. Ao contrário, os idiomas nos aproximam como povos, alguém teve que aprender inglês para traduzir os textos de Martin Luther King, graças a isso são lidos nesses idioma. Alguém teve que aprender francês para traduzir ao inglês os textos de Sartre, ou ao revés, aprender inglês para traduzi-los do francês. Como quer que seja, alguém teve que aprender outro idioma para poder fazer chegar aos povos as letras, a poesia, a música, em uma forma de intercomunicação muito válida e necessária.

Ponho o exemplo da literatura e da música mas me refiro a tudo o que nos rodeia como humanidade. Gostaria de caminhar pelas ruas da Mongólia e poder saudar um vendedor de verduras em seu idioma. Saber como pedir água ou por um trajeto em japonês. E, mais ainda, entendê-lo perfeitamente para poder ler em seu próprio idioma Hayashi Fumiko, e não em espanhol, porque na tradução se perdeu alguma aldeia, uma noite desgraçada ou uma lágrima da autora de Diário de uma vagabunda.

Aprender pelo menos um dos idiomas dos Povos Originários da América Latina ou de qualquer lugar do mundo. Aprendê-lo bem, nas palavras soltas. Quando dizemos “o idioma do império” nos referimos aos Estados Unidos e culpamos seu povo e o idioma inglês pelas ditaduras e intervenções, estamos acusando erroneamente nos baseando em estereótipos, ignorância e uma equivocada identidade.

Porque já falamos o idioma do império, por assim dizer e explicar da forma mais simples possível; o castelhano nos foi imposto, salvo que nos comuniquemos cem por cento no idioma dos Povos Originários, mas não é assim, nos comunicamos em castelhano, ao qual nos referimos como nosso idioma materno. Aí uma incongruência muito grande e desconhecimento da história e da necessidade de manter e criar fronteiras onde não há, ao apontar contundentemente para não aprender inglês porque é o idioma do império.

Se aprendemos outro idioma, qualquer que seja, abrimos a mente a outras culturas distintas às nossas, mas não por serem distintas são alheias, porque o ser humano tem uma adaptação medular que o unifica, por muito diferente que seja, isso é a diversidade. Crescemos com estereótipos, sim, ignorantes, sim. Crescemos com dogmas, tudo imposto pelo sistema que busca nos dividir de acordo com a conveniência de quem tem o poder que lhe demos para nos dominar. E há formas de dominação massiva muito sutis com efeitos tão poderosos que são imperceptíveis porque os aceitamos como norma ou padrão de parentesco e os refletimos em nossos estereótipos. Por exemplo: as fronteiras e nos negar aprender outros idiomas por questões de dogma.

Abrir a mente é abrir o coração. Não há nenhum benefício individual nem coletivo em brigar contra os idiomas e culpá-los do que fazem os que odeiam e exterminam a partir de uma posição de poder que milenarmente lhes demos. Essa também é nossa responsabilidade, porque o que fazemos ou não fazemos é político. Porque contra a cultura, contra a irmandade, contra o conhecimento, contra a socialização dos povos nunca pode nenhuma guerra, nenhum ódio. Aí radica nossa força e o desconhecemos ou pretendemos desconhecê-lo.

O “idioma do império” não existe, existem os idiomas e nada mais e são as portas que nos permitem conhecer outros mundos e nos irmanar como humanidade. Há ações políticas também muito sutis, que são formas de resistência inexoráveis, o conhecimento é uma delas. Mas desfrutar também o é e o espírito se enche de tal quando saciamos a sede; conhecer outras culturas nos ajuda a entender a nós mesmos, a entender nossos passos, os fios que nos entrelaçam e assim no lugar de criar fronteiras aprendemos a ir encurtando distâncias porque no final das contas todos vamos para o mesmo lugar embora os caminhos que trasitemos sejam diferentes.

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Ilka Oliva Corado @ilkaolivacorado

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