As párias da sociedade antes, durante e depois do 8 de março

Tradução do Revista Diálogos do Sul 
A empregada doméstica continuará sendo empregada doméstica, sem direitos trabalhistas nem direitos humanos. Todo os dias humilhada, na merda.
A boia-fria seguirá sendo boia-fria, excluída e violentada, trabalhando com as costas doendo de sol a sol, os 7 dias de semana. O feminismo não chega até os galpões onde dormem no chão.
A tecelã continuará sofrendo em uma fábrica, sem direito nem para ir ao banheiro em horas de trabalho.

E em 2017, o feminicídio de 41 meninas do abrigo Lar Seguro na Guatemala, violentadas sexualmente e torturadas pelo governo.
A cozinheira queimando a vida e os sonhos na frente de um fogão. Será a artrite que a consumirá no esquecimento da sociedade.
Antes, durante e depois do 8 de março, a pária seguirá sendo pária. Porque até o esgoto não chega o feminismo das redes sociais, o das exposições de arte e muito menos o de ação que é o consequente, o que transforma.
A mulher negra, indígena e transexual seguirá sendo excluída pelo feminismo burguês e branco. Porque este também tem seus limites quando se trata de romper com o patriarcado, com o racismo e com a diferença de classe.
Mulheres são as mais afetadas pela falta de políticas públicas | Imagem: Pixabay
Para a vendedora do mercado não existe o Dia Internacional da Mulher, tampouco para a analfabeta que lava roupa alheia, nem para que se esgota limpando quartos de hotel.
Não existe para aquela que vive em um lixão nem para a que faz malabares em um semáforo.
Não há 8 de março para as meninas, adolescentes e mulheres que são violentadas nos bares e nos bordeis, nem qualquer direito antes, durante, nem depois.
Não há marchas feministas mundiais que façam uma paralização mundial exigindo a eliminação de bares, a eliminação da exploração sexual, do tráfico de pessoas. Não há, porque até aí não chega o feminismo. Quem levanta a voz por uma pária? O que é uma pária no marco feminista?
Não haverá 8 de março nem antes, nem durante, nem depois, até que sejam as párias, desde suas entranhas que parem por si mesmas e ocupem o espaço que lhes foi arrebatado por falsas feministas, burguesas e oportunistas que só veem na ideologia feminista a oportunidade para sobressair individualmente levando vantagem da marginalização e do abuso de outras.
Serão as párias, indígenas, negras, transexuais, marginalizadas e operárias que reescreverão o feminismo mundial, serão as que como Rosa Luxemburgo, Clara Campoamor e Emma Goldman irão além do que é politicamente correto e derrubarão os muros e saltarão as cercas e borrarão todos os sinais do feminismo de ocasião.
Um dia, antes tarde do que nunca, sairão das entranhas do esgoto as mulheres que com voz de trovão lutarão por seus direitos, sem permitir que nenhuma oportunista as represente.
Nesse dia, cairá a farsa que hoje vemos como feminismo de salão, de etiqueta, o feminismo intelectual para as fotos, oportunista e burguês: o feminismo de enxadão.
E nesse dia, nesse dia, será o esgoto que vai falar e o mundo terá que escutá-lo.
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Ilka Oliva Corado @ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.wordpress.com

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