Falemos de patriarcado

Tradução do Eduardo Vasco, Diário Liberdade

O patriarcado deveria ser tema de conversas, como quando falamos de futebol, de música, de literatura, de arte, de filmes…

Deveria se falar de patriarcado e suas consequências na escola, na universidade, em reuniões sociais, em todos os lados e todas as horas.

Por quê? Porque é nosso inimigo a ser vencido, e não é temática que envolve somente feministas, não é preciso ser feminista para falar de patriarcado; o patriarcado prejudica a todos, a uns mais que outros, porque não matam um homem por causa de seu gênero, uma mulher sim.

Se um homem tem amantes ele é “pegador”, macho alfa, um Dom Juan que é aplaudido por todos; uma mulher se tem amantes é uma puta e é estigmatizada e menosprezada pela sociedade. Isso sim, quantos desses machões que a apontam não quiseram ir para a cama com ela e quantas dessas mulheres santas que a atiram pedras não gostariam de ser como ela. Mas essa é farinha de outro saco.

O inimigo a ser vencido é o patriarcado, que tem enormes tentáculos como a corrupção e a impunidade, é tão poderoso que está instalado em nossa sociedade como algo natural e cultural, sem importar o país.

Algo tão natural como um hábito, como a própria sequência do movimento de caminhar ou de fechar os olhos para dormir, o patriarcado se aprende, ninguém nasce sendo misógino, machista ou homofóbico, é tão, mas tão poderoso, que na maioria das vezes não nos damos conta de que estamos seguindo padrões que nos limitam, estereotipam e violentam.

Do patriarcado não se pode falar somente nas marchas de Ni Una Menos ou nos velórios das vítimas de feminicídio, ou quando nos informamos de um estupro; começa com a linguagem, segue com os gestos e termina com as ações que têm suas consequências mais drásticas nos feminicídios e transcídios. O patriarcado é uma estrutura que está cimentada no sistema, a violência de gênero não é promovida [pelas músicas de] reguetón*, mas pelo sistema que diz que a menina tem de se vestir de rosa e o menino não pode usar saia. Que o menino tem que ir perder a virgindade em um puteiro logo e a menina tem que esperar até o dia do matrimônio. O que é se deflorar em um bordel? Por acaso não é ocultar o milionário negócio do tráfico de meninas, adolescentes e mulheres para fins de exploração sexual? Por acaso não é ensinar os meninos a utilizar uma mulher como objeto? Por acaso não é desumanizar esse menino? Não é violentar essa meninas, adolescentes e mulheres?

A violência de gênero e o patriarcado são promovidos pela escola, que diz que os meninos não entram se tiverem cabelo comprido e que as meninas tampouco se tiverem o cabelo pintado e vestidas de homem. O que é se vestir de menina ou de menino? Em que nos baseamos, quem somos para dizer como se vestir, se comportar e se sentir cada gênero? E se uma pessoa sente que não tem gênero, como a tratamos? Essa mesma escola se vê dois meninos ou duas meninas se beijando, porque são mal exemplo e devem ir fazer terapia.

E às pessoas heterossexuais, é preciso endireitá-las? Existem realmente as pessoas heterossexuais? O que é a heterossexualidade? A maioria dos assédios de rua, golpes e feminicídios, é cometida por homens heterossexuais contra mulheres, homossexuais e mulheres transexuais? O que a sociedade patriarcal diz sobre isso? “Essa puta que procurou, esse maricas é que procurou”… O que mais diz? E o sistema de justiça, o que diz?

O que acontece com esses meninos que se sentem meninas? Os excluímos, insultamos e menosprezamos até que se suicidem? Até que sejam adultos frustrados, infelizes em um mundo de hipócritas? De hipócritas heterossexuais, isso sim.

A violência de gênero e o patriarcado é promovida pelo sistema carente de leis que apoiem o aborto legal e seguro. Um sistema de educação, saúde e justiça carentes de visão de gênero. O sistema que diz que uma mulher não tem a capacidade intelectual para desenvolver o mesmo trabalho que um homem e por isso seu salário deve ser menor. O sistema que diz que ainda que tenha a mesma capacidade, por seu gênero uma mulher deve ganhar um salário menor que o do homem.

E este alinhamento do patriarcado que é uma carência dos direitos trabalhistas e humanos, é ocultado por quem se beneficia da injustiça e aqui se contam mulheres e homens. Infelizmente.

Mulheres santas que estão contra o aborto, por exemplo. Homens santos e homofóbicos que estão contra do casamento igualitário, por exemplo. Uma sociedade que esconde ações desumanas de um sistema de governo patriarcal, machista, misógino e feminicida.

O patriarcado está em todos os lados, na literatura, na arte, no ponto de ônibus, na sala de aula, na linguagem do professor, no esporte (as auxiliares quase peladas, que entregam as medalhas e o reconhecimento aos vigorosos esportistas), nas mãos do doutor, nas promessas de exclusão de um candidato presidencial. Está na cama, no sexo.

O que nos limita de falar do patriarcado e suas consequências? Nossa moral dupla? Medo de perder a virilidade, no caso dos machos alfa? Medo do ridículo?

Falemos de patriarcado, misogínia, feminicídios, transcídios, falemos de homossexualidade, falemos de direitos, de justiça. Falemos de perder privilégios, para uns, e falemos da integração de uma sociedade que respeite as diferenças e a diversidade. Mas não só falemos, façamos, as palavras se perdem no vento, é nossa obrigação arrancar pela raiz o patriarcado e erradicá-lo.

  • Reguetón: gênero musical cujo som deriva do reggae jamaicano, com influências do hip hop. Aqui, podemos comparar com o funk no Brasil, de acordo com o sentido que a autora lhe concebe.

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Ilka Oliva Corado @ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.com

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