O norte, a emigração iminente

Tradução do Eduardo Vasco,  Diário Liberdade

O norte nem sempre são os Estados Unidos, o norte, para os migrantes e desabrigados, é um lugar distante ao qual vão em busca da utopia. Obrigados pelas circunstâncias, essas circunstâncias têm responsáveis: um Estado inoperante, um sistema avassalador por tradução e uma sociedade desumana e insensível.

Emigram forçadamente do povoado para a capital ou para outro país e isso muda suas vidas, desde que põem um pé fora de seus ninhos, nunca mais a partir deste instante voltarão a ser os mesmos. Algo se quebra, algo tão valioso e íntimo que é impossível reconstruir e recuperar. Se esfumaça e nos parte em dois: um antes e um depois; volta de tempos em tempos nos suspiros tardios da nostalgia. E, assim como as lembranças, não se pode tocar.

As migrações e deslocamentos forçados são o exílio mais doloroso; são uma ferida viva, sangrenta, que jamais consegue estancar: nem com o retorno. Esta melancolia se converte em um estado anímico flutuante, porque quem se vê forçado a deixar o seu ninho é como árvore que teve a raiz arrancada e, embora seja transplantada em outro lugar, jamais crescerá frondosa. Ainda que lhe adubem ou mudem de terra. É a mesma coisa com os humanos, embora tenham luxos materiais, embora transforme de vida em relação ao emprego, jamais, nada nem ninguém conseguirá preencher o vazio da perda: a raiz é insubstituível.

Mas tristemente nos casos reais da migração e o deslocamento forçado, nos quais são pessoas marginalizadas pelo sistema que os vivem, enfrentam uma pós-migração de humilhação e exploração. Sem documentos e sem os recursos, o deslocamento se converte em um inferno, esses migrantes são abusados de formas inimagináveis, mas as autoridades do país de trânsito, por grupos criminosos que os traficam para uma infinidade de coisas e também se conseguem chegar ao país de destino, os espera outro tipo de averno: o da depressão pós-fronteira somado do temor e paranoia constante de uma deportação e o dia a dia da exploração laboral.

O país de chegada pode ser qualquer um, as migrações internas também são sofridas dia a dia. O camponês que deixa o trabalho no campo para se internar na urbe de cimento. Isso aniquila qualquer espírito. O envio de remessas, a sobrecarga de trabalho, o estigma de ser migrante indocumentado ou deslocado. A eterna insônia, a angústia e a dor perene pelo ninho quebrado. Pela família destroçada, porque quando migra um dos membros, a família se fragmenta e se perde, perde-se algo que jamais poderá se recuperar. Com as migrações e deslocamentos forçados todos perdemos, porque quando um ser humano emigra, emigram as tradições, a identidade, a cultura, emigra o talento.

Esse talento que geralmente no lugar de chegada não pode se desenvolver porque circunstancialmente as condições também são de exploração e abuso, sobretudo de invisibilidade e viver nas sombras; no caso dos indocumentados a marginalização é atroz. Como o é para um indígena ou um afrodescendente que migra internamente, chegar a uma metrópole onde os citadinos os discriminam com o pior dos racismos, não por serem indocumentados, mas por sua origem. Imagine se, além do mais, essa pessoa só fala o idioma de sua etnia…

Quando um ser humano emigra forçadamente, todos perdemos.

Quanto vale a vida de um pária? Para que morram milhares tentando cruzar as fronteiras da morte. Quanto vale a insensibilidade e hipocrisia da população mundial para que siga sendo a migração e o deslocamento forçado interno e externo um tema que não importa?

O norte nem sempre são os Estados Unidos.

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Ilka Oliva Corado @ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.com

 

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