O “Não” na Colômbia represente triunfo das oligarquias

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Tradução de Raphael Sanz

A América Latina continua chorando sangue. Há quantos séculos agonizando? O “Não” na Colômbia é resultado de décadas de manipulação midiática e da aplicação em detalhes da agenda do Plano Condor no país – nas modalidades do tempo e da tecnologia.

A guerra é sempre mais rentável para as oligarquias do que a paz. Nas guerras os mortos sempre são postos pelo povo, que por sua vez se encontra vulnerável, com escassez de direitos. É mais rentável para as grandes máfias mundiais, manter a impunidade estruturada em uma falsa luta contra o narcotráfico; porque são milhões de dólares os que se movem por cima e por baixo da mesa e vão a dar a umas quantas famílias bem instaladas na política e na oligarquia colombiana. E para maquiar as transações está o jornalismo corporativo, antiético e de dupla moral. Os meios de comunicação que se encarregam de lavar cérebros e manipulá-los. De fazer desaparecer todo rastro de opressão.

Para demonstração no país, o Plano Colômbia, com o qual os EUA financiaram uma guerra letal contra o narcotráfico. Quinze anos nos quais militarizou o país e, como danos colaterais, centenas de meninas, adolescentes e mulheres foram violadas por militares estadunidenses e paramilitares colombianos, abusos que gozam de total impunidade. A mesma estratégia está sendo aplicada no triângulo norte da América Central com o Plano Aliança para a Prosperidade, e o Plano Mérida no México, sem mencionar o Plano Fronteira Sul e o Maya-Chortí, que têm como eixo central a suposta luta contra o narcotráfico. Mas todos sabemos de que lado mastiga a iguana.

Na Colômbia povos inteiros são retirados de suas terras, sem comida, sem trabalho, sem teto e sem roupa. Civis são torturados, massacrados e desaparecidos por paramilitares. A Colômbia está cheia de fossas clandestinas, como prova fiel do genocídio dos últimos 40 anos. Não surpreende o “Não”, porque na América Latina a classe média sempre foi manipulada devido a sua falta de identidade e de sentido de pertencimento, a sua insensibilidade. Sua carência de humanidade e bom senso. O “Não” e a abstenção são as formas em que a classe média diz: não nos importa o país nem o bem estar dos mais violentados pelo sistema, enquanto não nos incomodem dentro da bolha em que vivemos…

Na capital, a classe média, os burgueses e oligarcas que não sofrem de emboscadas paramilitares e que não se vêm obrigados a sair correndo de suas casas e buscar salvar suas vidas em outro lugar. Elas não sofrem as carências do Estado que mata de fome os marginalizados pelo sistema. Que os nega educação, saúde, segurança, e o desenvolvimento integral para uma vida sã. Abster-se neste caso é como ter votado pelo “Não”: é humilhar novamente, é cuspir na cara, é apunhalar pelas costas o povo que, sim, viveu em carne própria os horrores da guerra. É voltar a violar meninas, é voltar a torturar, criar fossas clandestinas, obrigar povoados inteiros a segregação, é obrigar a migrar. É abrir as portas dos Estados Unidos para que continue sua intervenção com o pretexto de lutar contra o narcotráfico que a direita aponta como guerrilheiro.

Não há uma só razão para dizer “Não” aos acordos de paz na Colômbia, porque assina-la é o início de um processo de reconstrução, se feita de boa fé e para o bem do povo e não de pequenos grupos lucrativos. Só pessoas insensíveis, desumanas, ignorantes, manipuladas e perversas podem votar “Não” em um país que clama um basta à guerra. Uma irresponsabilidade para com a pátria é ter votado “Não” ou ter usado da abstenção. Uma deslealdade para com a infância que tem o direito a sonhar e a viver em paz. Com os avós que têm todo o direito a viver a idade dourada em paz.

O “Não” na Colômbia, os golpes no Brasil, em Honduras e no Paraguai. Os governos neoliberais no triângulo norte da América Central, na Argentina, no Peru e no México, são o resultado da excelente aplicação do Plano Condor em cada região, e seu braço armado é a suposta luta contra o narcotráfico (antes era luta contra comunistas guerrilheiros). E seu “ás na manga” sempre foram os meios de comunicação de caráter corporativo.

Qualquer um que não tenha a cara de pau de falar sem delongas que votou “Não” ou se absteve porque sua desumanidade é grande, buscará uma infinidade de pretextos e entre eles dirá que não vai a dar seu voto para que os guerrilheiros vivam livres em impunidade e ainda tenham direitos políticos (como lhes corresponde), porque os mortos… Os mortos vieram do povo. Mais de um mencionará Fidel e Raul Castro, Chávez e Maduro, “a esses guerrilheiros vermelhos e ditadores” que tiveram algo a ver com a assinatura do Acordo de Paz. E cuspirão, pois, é do fígado que vem a ignorância, sua mente colonizada e deixarão ver sua atuação como ventríloquos manipulados por um sistema que os utiliza e depois os descarta.

O “Não” na Colômbia é o triunfo da oligarquia e dos Estados Unidos, mas a América Latina segue resistindo e o povo colombiano não é a exceção. Das punhaladas pelas costas está acostumada a Pátria Grande, uma a mais não a fará desvanecer. A Paz na Colômbia acontecerá, como também em cada rincão da América Latina. Pelos nossos mortos, pelos nossos mártires, pela infância, pelos campos verdes que florescerão nas aradas e nas ladeiras.

Um abraço cheio de amor ao povo colombiano, aos que lutam pela paz e os que têm chorado e sonhado com ela.

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Ilka Oliva Corado. @ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.com 

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