A dívida do feminismo latino americano com Dilma e Cristina

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Tradução de Raphael Sanz

Procurei até mesmo debaixo de pedras por algum comunicado expressamente feminista e burguês, onde se manifeste o rechaço ao Golpe contra Dilma e a perseguição política que sofre Cristina (e com ela, as Avós e Mães da Praça de Maio e Milagro Sala, entre tantos outros). Mas, ou eu não busquei bem ou não existem. Feministas manifestando-se individualmente sim eu vi, mas esse é outro caso. Falo do conglomerado que para outros trâmites assinaria imediatamente.

Pelo contrário, organizações de mulheres se pronunciaram abertamente nos bairros e foram milhares as que tem tomado as ruas da Argentina e do Brasil para mostrar respaldo a ambas presidentas. Também vimos no Equador, Bolívia, Nicarágua, Cuba, Peru, Colômbia e Venezuela. A essa mulheres de periferia, as feministas burguesas chamam de fanáticas e idealistas. Ignorantes. Porque não têm um título universitário que lhes permita o mote de intelectuais. Porque tornam visível, na prática, o que outras acomodam na teoria.

O grande vazio neste momento da história é o do feminismo latino americano. E o encabeça o feminismo burguês, obvio. O feminismo de vitrine. O que é excelente plataforma para pronunciamento, da intelectualidade e comodidade de classe, que eleva e galanteia em lisonjas aqueles que sabem de cor a teoria mas que são incapazes – por hipócritas e oportunistas – de torna-la ação na prática.

Me refiro com isto àqueles que vão e vêm recitando “uma habitação própria”, de Virginia Woolf, mas que jamais baixariam até o “esgoto” para dizer à mulher trabalhadora como liberar-se de um sistema patriarcal que a abusa e invisibiliza. A falar de políticas de inclusão, de seus direitos. A compartilhar com ela um livro. Me refiro àquelas que vão partindo a praça com o seu “eu, feminista” e que são adeptas de Simone de Beauvoir mas que têm pavor de Rosa Luxemburgo, Clara Campoamor ou Dolores Ibárurri, “La Pasionária”. Mas isso sim, comemoram a cada ano as 13 Rosas. Para que vejam… e ainda degradam mulheres como Evita Perón e Bartolina Sisa, uma por indígena, a outra por pária e iletrada. Mas isso sim, vão pelo mundo ditando conferencias com uma gravata típica, para que digam… mas em suas casas as mesmas indígenas e párias das que falam estão trabalhando de segunda a domingo sem direitos trabalhistas. É desse feminismo que falo, do que abunda por aí.

Falo do feminismo onde se jogam flores umas às outras, com banhos de intelectualidade.

Do que permite entrar às universidades, embaixadas e centros culturais para recitar textos e obter diplomas de participação, fotografias e contatos; mas que não vai falar de direitos humanos, trabalhistas e violência de gênero para a caixa do mercado, para a padeira ou a diarista: porque aí não há como tirar vantagem.

À manicure, àquela que apodrece 18 horas na fábricas. Simples, a razão é simples: porque para passar da teoria para a ação são necessários desdobramentos e isto não faz qualquer um. O mesmo sucede com os intelectuais da ultra esquerda.

Aí entram Dilma e Cristina que são aborrecidas por esse tipo de feminismo, porque demonstram todos os dias, com ação, que a teoria pode ser bem usada se canalizada a campos abertos, às fábricas e periferias. Não só isso, elas demonstram que sim são possíveis as políticas de inclusão social e equidade de gênero. Não por gosto uma é perseguida política e a outra acaba de receber um golpe traidor. Quantas meninas, adolescentes e mulheres puderam ir à escola durante seus governos?

Quantas meninas e adolescentes foram tiradas do trabalho forçado, da exploração infantil? Do tráfico sexual? A quantas foram dados direitos trabalhistas? A quantas Dilma e Cristina permitiram a expressão e o sustento? Quantas tiveram educação gratuita e conseguiram se graduar na universidade? Quantas tiveram acesso ao sistema de saúde? A quantas foram quitadas toda sorte de degradação humana e colocados computadores, pinceis ou um uniforme esportivo  no lugar? E não é teoria. As mudanças são palpáveis e visíveis e sabemos todos, ainda que alguns pretendamos não conhecer porque nos convir  pessoalmente e para nossos projetos particulares.

Ao feminismo latino américa burguês, ao da lisonja, ao feminismo das loções e microfones apartados, ao que nunca foi político porque para ser político precisa integridade; a esse feminismo Dilma e Cristina parecem grandes. Esse feminismo não merece congêneres como elas. Não as ganhou, não lutou por elas. E seu silêncio neste momento da história o evidencia.

 

Esse feminismo vem sendo então uma cópia da ultra esquerda latino americana que também as aborrece e apunhala. Porque o silêncio outorga, e quem guarda o silêncio solapa. É nesses momentos nos quais o feminismo deve se pronunciar e não por paixão, por idealismo, por fanatismo. Deve se pronunciar porque deveria ser obrigação moral e humana para com duas mulheres que mudaram a história da América Latina, gostem ou não.

E devem pronunciar-se por agradecimento, por lealdade e por consequência política, porque foram milhões de mulheres nos mais baixos estratos sociais as que se beneficiaram com as políticas de inclusão de ambas. Essas milhares de mulheres que nunca viram uma feminista burguesa ir a seus lugares de trabalho ou as cumprimentarem nas ruas, convida-las a um café e conversar, como fazem com intelectuais e gente de classe social elevada onde sim podem obter benefícios pessoais pelo contato.

Provavelmente muitas feministas me chamariam de ignorante, idealista e fanática. Me deixarão infinidade de mensagens com insultos, como regularmente acontece quando questiono o feminismo, e me chamarão de machista. E me desmantelarão a teoria. Ou simplesmente me chamarão de louca, como acontece com frequência.

Muitas talvez façam reluzir o tema do aborto e a corrupção da qual acusam as presidentas (sem provas) para defender sua negativa a apoia-las e assim lavarem suas mãos. Jamais mencionarão que estas duas mulheres foram insultadas, menosprezadas e que sofreram violência de gênero – dos meios de comunicação ao esposo da feminista burguesa que nunca lançou a voz de sua zona de conforto; e elas sofreram por serem mulheres consequentes com a ação que é a única coisa que muda os padrões e que libera sociedades.

Não há ponto de comparação com o feminismo burguês e todos os que daí nascem, com o seu “eu, feminista”, mas que guardam silêncio diante deste nível de violência que estão vivendo Dilma e Cristina. Só fico a agradecer o respaldo das mulheres sem etiqueta e sem ares de intelectualidade agradecidas e consequentes – e sobretudo políticas – que deram a cara em defesa de semelhantes mulheres da América Latina.

Não sou feminista, não pertenço a nenhum gueto ou jaula: a mim se quiserem etiquetar me chamem como sou: pária. E estou com Dilma e Cristina. Por amor e agradecimento. E se pareço populista é porque o sou em absoluto.

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Ilka Oliva Corado. @ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.com

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