Os Jogos Olímpicos entre o patriarcado e o elitismo

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 Tradução de Raphael Sanz  

Os Jogos Olímpicos têm sido elitistas desde o seu início. Os chamados Jogos Olímpicos da Antiguidade, que ocorreram de 776 a.c. a 393 d.c., também foram exclusivos para homens, coisa que foi mudando conforme foram passando os anos e mais mulheres incursionaram em disciplinas que há 120 (início dos Jogos Olímpicos Modernos) anos o mundo jamais imaginara. Rompendo paradigmas, o gênero feminino demonstrou que não há nada no mundo que seja absoluto de um gênero (salvo parir) como o patriarcado pretende que memorizemos.

Derrubar as muralhas no esporte foi um trabalho árduo para as pioneiras que tiveram que enfrentar todo tipo de rechaços e humilhações, para que hoje sejam tantas as mulheres que possam participar e encontrar a realização em algo que para as anteriores lhes foi negado. Não esqueçamos que nos Jogos Olímpicos da Antiguidade as mulheres não podiam participar sequer como espectadoras, muito menos como protagonistas.

Contudo, o trabalho pela equidade de gênero segue sendo difícil, falta muito para que a sociedade, o sistema e o mundo do esporte eliminem os padrões patriarcais e misóginos para dar espaço a uma nova humanidade: diversa e enriquecida pelo respeito. Isto inclui também a participação da comunidade LGBTT sem que seja insultada e discriminada a partir dos estereótipos e da misoginia.

Rechaçados também neste tipo de competências foram os homens que para o patriarcado mostravam debilidade física e mental. Foram criados em exclusivo para os homens com todas as características do macho alpha. Por essa razão era tão importante visibilizar a mulher quando as Olímpiadas regressaram a Atenas em 2004. Ficará para a história a imagem daquela mulher vestida de branco, como anfitriã dos Jogos Olímpicos, enviada com isto uma mensagem clara e direta ao mundo patriarcal: a igualdade de gênero nos engrandece como humanidade.

Os Jogos Olímpicos de Paris, conhecidos também como a II Olimpíada, marcaram pela primeira vez a participação das mulheres no tênis, golf e cricket (cabe destacar que são esportes elitistas também, praticados a partir de certo status social, pela exclusividade dos recursos materiais e econômicos necessários para praticá-los. Com isto se sobre-entende que as participantes foram mulheres de um status social provavelmente burguês, e passariam muitos anos para que a mulher de periferia pudesse participar) que até hoje seguem sendo elitistas a partir das classes sociais, para não falar em cor de pele, religião ou cultura. Não podemos nos enganar. Estamos derrubando muros, mas ainda faltam muitos.

Situando-nos no Rio 2016, temos visto a forma em que os Estados Unidos e seus aliados através do Comitê Olímpico Internacional politizou a participação da delegação russa, castigando esportistas ao privá-los de participar, como consequência das decisões políticas de Putin. O antidoping é mais político do que outra coisa, tem pouco a ver com o espirito do jogo limpo.

Os Jogos Olímpicos do Rio 2016 fizeram história na inauguração, pela primeira vez, uma pessoa transexual escoltou uma delegação, tal foi o caso da modelo Lea T, que pedalava um triciclo anunciando a delegação brasileira. Isto graças às políticas de inclusão dos governos Lula e Dilma ao tornar realidade o Matrimônio Igualitário e revalidar os Direitos Humanos da comunidade LGBTT. Exemplo que devem seguir todos aqueles países com sistemas misóginos. A mudança é necessária e urgente.

Logo virá o tempo também em que cairá a casa na cabeça da sociedade mundial e seja comum ver como protagonistas em eventos esportivos de nível internacional como Jogos Olímpicos ou Mundiais, pessoas transexuais, porque têm todo o direito do mundo. Não podem ser privados em nome de religiões misóginas, estereótipos e normas patriarcais.

Temos visto de tudo no que se refere aos Jogos Olímpicos, desde comentaristas esportivos que exigem que as ginastas usem decotes mais pronunciados, até titulares de jornais nos Estados Unidos, como o caso do Chicago Tribune, que invisibilizou a atleta Cory Cogdell que ganhou medalha de bronze no tiro, quando se referiu a ela como a esposa de um jogador do Chicago Bulls. “Esposa de jogador do Chicago Bulls ganha medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio”.

A vergonha mundial teve de haver sido um time de refugiados participando. Onde chegamos enquanto humanidade para termos o descaro de aceitar algo assim? Com nossa hipocrisia os aplaudimos emocionados, mas deixamos de olhar para a profundidade da mensagem que é a terrível situação dos refugiados ao redor do mundo, a causa de guerras impostas por um grupo de políticos que nos manipulam a seu bel prazer.

O pessoal é político, e demonstrou-se uma e outra vez. A atleta brasileira Rafaela Silva, primeira a ganhar um ouro para o Brasil, nascida e crescida na comunidade da Cidade de Deus (sim, a do filme) pôde praticar esportes graças à Bolsa Atleta, projeto impulsionado por Lula. Mulher negra e periférica que foi insultada e discriminada por sua cor em Londres 2012, deu glórias ao Brasil em nome das favelas que tanto são odiadas por Temer e pela classe média brasileira. Rafaela, assim como Marta, estão com Dilma, obviamente.

Também vimos a forma em que a política prende e encarcera a qualquer pessoa que dentro das instalações olímpicas onde são realizados os jogos se manifeste contra o governo golpista de Michel Temer. Coisa que nunca ocorreu com Lula e Dilma, deixaram que o povo se manifestasse onde quisesse porque é seu legítimo direito.

A tristeza das imagens de crianças das favelas (Morro da Mangueira, famoso por sua escola de samba) vendo a inauguração desde fora, porque para eles não havia entrada. Isso é no Brasil e em qualquer lugar do mundo. Tanto os esportes como as artes têm sido exclusividades de uma classe social e para o homem branco e patriarcal. Estamos derrubando muros, mas ainda faltam muitos.

Uma sociedade que está mais entusiasmada pela menção à Vogue aos uniformes das delegações esportivas, que da mesma participação dos atletas e suas circunstâncias e limitações impostas pela Comitê Olímpico de seus países para ali estar. Tal é o caso do Comitê Olímpico Guatemalteco que descontou salário dos atletas, mas o pessoal administrativo está com tudo pago e quite. A injustiça nos esfrega na cara suas andanças e não há forma de reagirmos enquanto sociedade.

A medalha de ouro no judô vencida pela esportista Majlinda Kelmendi, para Kosovo. Uma mensagem política em sua totalidade quando dedicou a medalha à infância de seu país, que ainda com consequência de uma guerra atroz se atreve a sonhar. Não haverá nunca na história medalhista de nenhum país catalogado como potência mundial que se compare. A medalha ganhada ao lado do sacrifício e da carência sempre sabe a glória, distinto é ter todos os recursos para conseguir. Não nos enganemos em nome do amor ao esporte.

Por isso é tão valiosa a participação de atletas de países em desenvolvimento porque foram capazes de ganhar medalhas contra todos os prognósticos. Somente estar ali os faz ganhadores sem necessidade pódio ou medalha. Isso nos deve recordar, como sociedade, que devemos eleger governos que invistam nas políticas de desenvolvimento. Em saúde, esporte, educação, cultura. Em infraestrutura e em criar laços que ajudem a reconstruir o tecido social de nossos países fragmentados pelo ódio de uns quantos.

O lema do Rio 2016 é “um novo mundo” e não devemos deixar de lado as mudanças climáticas das quais todos temos culpa. Um novo mundo em integração, identidade, respeito, em sensibilidade. Um novo mundo que nos transforme de seres manipulados a partícipes da realidade política e social de seu entorno. Os Jogos Olímpicos sempre são o cenário perfeito para sua visibilidade midiática, para que como seres políticos por natureza, passemos da passividade à ação. São a exemplificação da magnitude das máfias mundiais que correm o esporte e a política. Do patriarcado, da misoginia e da discriminação de gênero. São a melhor exposição cultural que se pode dar em duas semanas de eventos, que se prestamos atenção nos cospe na cara o que somos como sociedade.

O imprescindível que é ter um sistema de educação que inclua a atividade física e as artes como espinha dorsal para o desenvolvimento integral de uma sociedade sã, que não exclua por nenhuma razão.

E para terminar, o mais belo que sucedeu nos Jogos Olímpicos que é a declaração de amor da voluntária brasileira a sua namorada, da seleção de rugby, pedindo-a em casamento. Um feito que ficou impresso para a história dos Jogos Olímpicos em um país que em vive crise política devido a um golpe traidor à democracia, demonstra ao mundo que nas políticas de inclusão o amor sempre triunfa. E isso o Brasil deve a Lula e Dilma, e ninguém mais. É obrigação do povo brasileiro defender essas conquistas.

Como pode ver, há muito o que falar em torno dos Jogos Olímpicos, sobre patriarcado, religião, política, cultura e o próprio esporte. Não guardemos silêncio, não pretendamos não ver, não tenhamos a hipocrisia de ignorar a crise humanitária dos milhões de refugiados ao redor do mundo e que nos encham os olhos de lágrimas ao ver desfilar 10 deles em um evento demasiadamente elitista. Que a atleta de Kosovo, as que estão participando com seu hijab posto, as negras que foram discriminadas, os atletas da comunidade LGBTT, os esportistas periféricos que estão participando, sejam todos nossa motivação para criar sistema inclusivos em nossos países. Não pelos Jogos Olímpicos, nem para que participem deles, senão para uma vida sã, integral, de crianças felizes e de adultos que façam parte de uma sociedade transformadora. Sempre, sempre, o esporte assim como as artes, devem ser políticos, como tudo na vida.

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Ilka Oliva Corado. @ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.com

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