O eterno racismo na terra da Ku Klux Klan

Tradução de Raphael Sanz

Surge a pergunta urgente: o que faz Obama falando de direitos humanos na Venezuela e assinando ações executivas intervencionistas, quando em seu país a polícia caucasiana assassina afro descendentes todos os dias em crimes de ódio racial?

Partindo daí é impossível falar em democracia no país, uma falácia a mais entre tantas que esse sistema intervencionista inventou, já que não se ocupa de sua política interna.

Sem lugar a dúvidas, a pior vingança para a comunidade afro descendente é haver tido um presidente negro afeito ao capital, que não os representou com integridade e que a cada ação ofendeu seus ancestrais e desrespeitou as gerações futuras.

Ainda mais cruel, que diariamente veja assassinarem afro descendentes pelas mãos da polícia caucasiana, em evidentes casos de ódio racial e que nada tenha feito a respeito além de utilizar sua oratória e sua excelente dramatização teatral para dar os pêsames entre lágrimas e poesia. Uma desonra total para os mártires afro descendentes que deram suas vidas na luta por Direitos Civis.

Mais latente do que nunca está a Ku Klux Klan, e mais livre e mais impune por vir das entranhas do sistema de justiça de todo o país. A polícia é apenas a ação evidente, tem muito mais nas sombras da midiatização. Direitos humanos nos Estados Unidos? Jamais.

Essa segregação racial, que os Estados Unidos não podem esconder ainda que queiram, é como um elefante dentro do apartamento. Está no sistema de saúde, no sistema de educação, está nas fibras mais íntimas da sociedade, nos padrões transmitidos às crianças; nas coisas mais banais também estão imersos o racismo e o ódio. E o que é evidente, no sistema de justiça que não é imparcial quando se trata de negros ou latinos indocumentados. De uns anos pra cá isso também ocorre com os muçulmanos acusados, a torto e a direito, de terroristas.

Os atos terroristas dos Estados Unidos são realizados todos os dias pela polícia e por esses torturadores, esses violadores, esses assassinos vestidos de uniformes azuis, que são fieis à Ku Klux Klan e nunca vão para a prisão. Contra eles nunca são impostas penas, a eles o sistema e a dupla moral de uma sociedade branca caucasiana sempre protegem – e releva o ódio racial, porque estes também se sentem superiores por conta das cores de suas peles.

Por que Obama não assina uma Ação Executiva de emergência para tratar o ódio racial da polícia às comunidades latinas indocumentadas e afro descendentes? Assim como as assina de imediato para invadir países que mal ou bem vivem regimes democráticos?

E o papel da sociedade, por que não saíram as massas brancas caucasianas para exigir um basta aos crimes raciais e denunciar o sistema impune que deixa os culpados livres? Todas as vidas importam nos Estados Unidos? Não. Importam apenas as vidas brancas caucasianas e nada mais. Onde estão as comunidades europeia, muçulmana, asiática e latino americana se unindo às manifestações massivas de afro descendentes que exigem justiça? E a comunidade LGBTT que chorava de alegria quando foi legislada a lei do Casamento Igualitário, onde está agora unindo-se aos afro descendentes exigindo respeito à vida e aos direitos humanos? Dupla moral? Dois pesos e duas medidas? Onde estão as igrejas, os membros que tomam as ruas quando se trata de aborto, onde estão se manifestando pelo respeito à vida dos negros? Dupla moral? Dois pesos e duas medidas? Onde estão os milhões de indocumentados unindo-se às manifestações? Dupla moral? Dois pesos e duas medidas? De que somos feitos? De porcarias, só pode…

A tendência com a qual midiatização dos meios de comunicação nacionais e internacionais têm manipulado a informação é a evidência de um racismo que se vive a nível mundial. Pergunto: onde estão os presidentes do mundo que pedem uma invasão na Venezuela, exigindo justiça pelos crimes de ódio feitos nos EUA, questionando Obama assim como questionam Maduro? Por que não pedem a renúncia de Obama assim como pedem a de Maduro? Assim como foram Orlando, Bataklan, Charlie Hebdo, Bruxelas e tantos ataques terroristas, por que não são choradas as vidas dos afro descendentes nos Estados Unidos e no mundo?

Com que cara Hillary Clinton, Biden e Obama pedem a Maduro que “respeite” os direitos humanos dos venezuelanos quando em seu país a polícia assassina afro descendentes e latinos indocumentados todos os dias e os culpados nunca são punidos? Dupla moral? Dois pesos e duas medidas?

Isto não se trata de negros e brancos. Se trata de um sistema impune, de uma sociedade que solapa, de líderes que manipulam, de meios de comunicação que ocultam e tergiversam. Se trata de nossa dupla moral. Se trata do silêncio de todos os que vivem nos Estados Unidos, nascidos aqui ou não. Se trata de deixar a outros a responsabilidade que nos corresponde desde o nosso lugar na sociedade. Se trata de nossa indolência quando a violência é sofrida pelo outro que não fala nosso idioma, que desconhece nossa cultura, que não vive perto da nossa casa, que nasceu em outro país, que tem uma cor de pele diferente da nossa.

Se trata do desumano que nos corrói e que nos transforma em lacaios idênticos aos que exercem a discriminação racial e os crimes de ódio. Somos ainda mais culpados por avalizar a segregação racial e a injustiça com nosso silêncio e nossa passividade.

Isto também nos incumbe a todos, dentro e fora dos Estados Unidos, porque o ódio racial existe em todo o planeta. Isto deveria nos convocar a uma auto avaliação do nosso papel na sociedade e fazer-nos perguntar as vezes que forem necessárias, de que maneira eu exerço o racismo? Em que forma solapo a segregação racial? E a mais importante pergunta, o que posso fazer desde o meu lugar na sociedade para criar uma mudança? De que maneira posso me envolver?

E como vai a nossa dupla moral? É nosso país também a terra da Ku Klux Klan? De que magnitude é o racismo em nossa casa, colônia, bairro, povo, comunidade e país? Quão patriarcais, misóginos, machistas, classistas, racistas e xenófobos somos? Quão colonizadas são nossas mentes?

Nossa maior irresponsabilidade como cidadãos do mundo é deixar em mãos de outros o que nos corresponde como seres individuais, que somos parte de um todo, porque no final das contas tudo nesse mundo está em nossas mãos. Todas as vidas importam? Depende de gênero, cor, etnia, nacionalidade, classe social e grau de escolaridade, essa é nossa consigna no mundo inteiro. Eis o nosso nível de desumanização.

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Ilka Oliva Corado. @ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.com

Estados Unidos, 9 de Julho de 2016

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  1. Pingback: Traduções: Crónicas de una inquilina | Raphael Sanz

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