Hillary Clinton, intervencionista na América Latina

Tradução de Raphael Sanz

É agora que Hillary Clinton está vendo os frutos da decisão de haver se divorciado de seu esposo que cometeu a baixeza da qual os meios de comunicação e o patriarcado qualificaram como brincadeira ou aventura. Os mesmos meios de comunicação e o mesmo patriarcado que lapidaram a jovem envolvida; quando o casado, aquele que tem uma família e que prometeu fidelidade, ele que falhou. “É o presidente dos Estados Unidos, é permitido”, e com isto lavaram-se as mãos.

Hillary Clinton com esta decisão de moral contraditória e submissa diante do patriarcado enviou uma mensagem equivocada às mulheres jovens, sendo ela uma figura pública que se reivindica feminista. Sem necessidade de ser feminista, nenhuma mulher que se respeite tolera tamanha falta de respeito e humilhação de tal magnitude. A vida pessoal reflete a vida política. Não faço esse comentário como juíza, porque não me incumbe a vida privada de ninguém, não é do meu feitio julgar, mas é preciso honrar suas palavras e se alguém se reivindica feminista tem de mostrar nos seus atos.

Clinton se apresenta nas redes sociais como: esposa, mãe e avó. Nessa ordem, demonstrando com isto seu rol alinhado ao patriarcado. Que feminista será Clinton? Que tipo de feminista pode dar seu voto por uma mulher que lhe falta respeito a tantas anteriores que deram suas vidas em defesa dos direitos da mulheres? Ainda que esteja claro, existe a modalidade feminista anglo, que defende os direitos apenas da mulher branca caucasiana, do machismo e da misoginia. Um exemplo muito claro: o abuso que sofre a comunidade afrodescendente nos Estados Unidos. E também a latino americana e a muçulmana.

Partindo daí, o contexto do feminismo que maneja Clinton é burguês por onde quer seja visto. Burguês e alinhado ao patriarcado. Não sou feminista, mas tampouco consinto com desaforos, muito menos quando isto é para oprimir outras mulheres. O papel intervencionista que jogou Clinton na América Latina (e no mundo) não é o de uma feminista que respeita os direitos humanos. Nenhuma feminista da fato aprovaria guerras, intervenções e invasões sobre outros povos. Nenhuma feminista chamaria de “danos colaterais” as meninas, adolescentes e mulheres violentadas por militares invasores. Nenhuma feminista toleraria centros de tortura como Guantánamo. Hillary Clinton os defende.

Fazer o papel de uma esposa condescendente que perdoa as infidelidades do marido lhe permitiu estar onde está, e aumentará seu poder quando for nomeada em uns meses a primeira mulher presidenta dos Estados Unidos. É claro que seguindo a norma estabelecida milenarmente: primeiro tinha que ser homem negro, alinhado ao capitalismo, vergonha de sua etnia; e logo depois uma branca caucasiana, alinhada ao capitalismo e vergonha de seu gênero. Ambos desumanos, intervencionistas e peões do capital financeiro.

Que ser humano que é consciente, honrado e íntegro solapa e conduz intervencionismos em outros países e permite a opressão em si próprio? Por que não se manifestou contra o golpe sobre Dilma Rousseff no Brasil assim como denuncia a “ditadura” de Maduro na Venezuela? Digo baseada em sua reivindicação como feminista.

Não se é mulher porque se nasce com vagina e útero. A mulher é uma construção e não é preciso ler pilhas de livros para compreender isso, é senso comum, é instinto. Hillary Clinton por si mesma é um protótipo do capital estadunidense que se utiliza de uma condição de gênero para sua conveniência pessoal e o coloca a disposição do setor empresarial mundial e das elites intervencionistas. E o que é pior: manipula as mentes das mulheres que em afã de igualdade acreditam que ela seja feminista.

Hillary Clinton fala de Cuba e não autorizará o fim do bloqueio, assim como fala da Venezuela e atiça a invasão militar, o mesmo que apoia (e como presidenta autorizará) as deportações massivas de imigrantes latino americanos sem documentos. O mesmo que teve a ver com o golpe sobre Manuel Zelaya em Honduras. Durante seu mandato será Honduras o país base onde manobrarão qualquer manipulação e ataque intervencionista ao continente. Assim se perfila e podemos ver sem a necessidade de lentes de aumento.

A destituição de Zelaya não foi afinco da oligarquia interna apenas. O Plano Fronteira Sul e Maya-Chortí não foi por puro afã de agredir e assassinar migrantes em trânsito; o objetivo principal foi militarizar do México até Honduras. O Plano da Aliança para Prosperidade não é uma doação humanitária dos Estados Unidos para Triângulo Norte da América Central. O neoliberalismo estabelecido na região dá passo ao avanço da interferência estadunidense em diferentes planos. Perú com Keiko Fujimori era a opção B para país base, pelo menos aí Clinton não tem a mesa servida como imaginou, os resultados das eleições dão um respiro, não tão prolongado mas um respiro enfim.

Wall Street conseguiu o que propôs ao começo da corrida pela presidência: mobilizar as massas para Hillary Clinton. Para isso criaram um arquétipo de concorrente que despertou o ódio racial que sempre existiu no país, que desferiu incontáveis palavras medíocres contra as etnias, continentes e países. A mediatização o realçou a cada atuação e acentuou cada oratória previamente planejada para que Trump fosse o antagonista odiado. A Sanders que representa uma volta de 360 graus para o país, o deixaram nas sombras, sem microfones e sem tribuna. Porque gostemos ou não, este mundo está ao contrário, não é movido pelas massas, mas pela mediatização e o poder do capital das elites.

Com essa mesma intromissão dos meios de comunicação começaram a celebrar sem qualquer timidez a já clara presidência de Hillary Clinton. Capas de revista festejam, a idolatram e a colocam como semideusa da política neste país de aminésia colossal, de xenofobia e ódio racial. Estreiam documentários, ensaios são publicados a granel, antologias e séries fotográficas que contam sua vida.

Hillary Clinton será a primeira presidenta dos Estados Unidos, isso não garante uma mudança em matéria de direitos humanos na política interna, direitos trabalhistas para mulheres sem importar a etnia ou status migratório. Mas não só isso: será a primeira mulher anglo caucasiana que desde a antípoda do feminismo marca uma nova era no intervencionismo estadunidense não apenas na América Latina, mas no mundo inteiro.

Tal parece que o objetivo principal de Hillary Clinton é o de superar a peça fora de lugar que Margareth Thatcher deixou no mundo.

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Ilka Oliva Corado. 8 de junho de 2016. Estados Unidos

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